Sobrevivendo ao inverno em Chicago

Ah, o inverno. Época de neve, vórtex polar, tombos na calçada, chocolate quente e/ou aquele bourbon pra esquentar. Na qualidade de Brasileiro em geral e Carioca em particular (daquele que dizia “Ah, vamos pra Itaipava pegar um ~friozinho~”), começar a entender o que é de verdade demora um tempo. Se há alguns anos eu achava que 20 graus era temperatura para casaco e cachecol no RJ, hoje eu sei que 20 graus é pra fazer um churrasco e beber uma cerveja gelada de bermuda e camiseta. Após um estágio de 8 anos em São Paulo e temperaturas de um dígito, hoje eu rio na face da neve, gelo e temperaturas negativas. Ok, não é pra tanto, mas posso dizer que ser um humano funcional entre Dezembro e Março é mais fácil hoje do que quando eu cheguei em Chicago. Então, para não sofrer hipotermia, congelamento das extremidades ou pagar vexames em geral, aqui vão umas dicas para você sobreviver na tundra congelada em qualquer parte do mundo.

A neve

Eu sei. Ver a neve caindo e deixando tudo branco é bonitinho e nós, que somos dos trópicos, temos uma relação de deslumbramento com os floquinhos que caem dos céus. Porém, se você não é a) criança ou b) snowboarder e/ou esquiador (ou seja, se a neve não é para lazer), vou deixar bem claro: neve é perrengue. É difícil andar, vôos são cancelados e o uber vai certamente ter um belo price surge. Imagine ter que acordar 45 minutos mais cedo para desenterrar o seu carro e ficar 15 minutos simplesmente tentando sair da vaga. Ou ter que pegar o transporte público enquanto exposto aos elementos. Resumindo, qualquer atividade que não seja brincar torna-se extremamente complicada na neve. E, claro, neve é muito bonitinha quando acaba de cair, mas fica nojenta bem rápido.

Snow

A temperatura

O maior erro que um ser humano pode cometer é achar que não tá tão frio só porque o sol está brilhando lá fora. Eu sofro desse mal. Inclusive, formulei uma hipótese sobre o motivo dessa dissonância cognitiva: é algo biológico. Algum mecanismo evolucionário particular aos Cariocas inicia uma resposta involuntária que diz ao cérebro “tá calor, vamos pra praia” ao ver o sol brilhando. Acredite, não é o caso. Além disso, eu tenho uma outra hipótese que, essa sim, vai abalar as estruturas da própria física e/ou matemática: Temperatura não é escalar, é vetorial. Dependendo da direção da temperatura, 5 graus é frio ou quente. Por exemplo, se você está vindo de -20 (na transição do inverno para a primavera, digamos), 5 é quente. Se você está vindode 25, 5 é frio. Aguardo o parecer da comissão do Nobel. E, cara, frio de verdade é frio. Se você não tomar as devidas precauções, sua cara vai literalmente congelar e você não vai conseguir falar direito (porque sua cara congelou). Há alguns pontos positivos, porém. A sua cerveja vai chegar em casa já gelada enquanto você vai da birosca da esquina até a sua casa. E mais: você sempre pode colocar mais roupas, ao passo que, no calor há um limite do número de peças que você pode tirar.

Covered Car

E agora? Comofas?

Bases e camadas

Não pense que aquele modelito que você usou naquela trip para Teresópolis / Campos do Jordão / Serra Catarinense vai funcionar na neve e nas temperaturas bem abaixo de zero. Pode deixar aquele moletom do Hard Rock em casa, não vai rolar. O nome do jogo é camadas. Você vai precisar de uma camada-base que aguente bem o tranco e ir colocando mais coisas por cima. Nem pense em usar camada-base de algodão. Algodão não se dá muito bem com a umidade do seu corpo e você vai acabar com mais frio do que se não estivesse usando nada. Prefira camadas-base sintéticas ou de lã de Merino. Uma das minhas favoritas são as Capilene da Patagonia. Camada-base resolvida, vamos para a camada intermediária. Um bom suéter de lã ou fleece por cima da camada-base é essencial, como esses aqui. Para a última camada, você vai precisar de algo que seja capaz de isolar o seu corpo do vento, como um casacão mais pesado ou uma parka. Em nome da versatilidade, um casaco à prova d’água é a melhor pedida. Algo assim ou assim. Para as pernas, geralmente um par de jeans funciona bem por cima da camada-base. E, sim, estar preparado para o frio custa caro.

Luvas, meias e botas

Luva é um troço maligno. É difícil manusear qualquer coisa com luvas e, se você não consegue viver sem olhar o seu telefone a cada 5 minutos (ou precisa se localizar com a ajuda do Google Maps), decidir entre tirar aquela selfie e manter os dedos das mãos vai ser um desafio. Há luvas específicas para quem não consegue ficar longe do telefone, como essa aqui, mas na maioria dos casos elas não são quentes o suficiente. Se a temperatura no seu destino não fica abaixo de zero, pode ser uma boa. Para qualquer lugar mais frio (ou se você tem as mãos geladas por natureza, como eu) você vai precisar de algo mais hardcore. Eu sou fã dessa Gordini aqui. Considere também glove liners e/ou hand warmers. Para os pés, uma combinação de liner socks e meias de lã (lembre-se: camadas!) é o caminho. Um par de Wigwams ou Carhartts vai dar conta do recado. E, claro, você precisa de uma bota. Apesar de ser simples bom senso, permita-me enfatizar a necessidade de uma bota que isole seus pés do frio e que seja à prova d’água. Você vai andar na neve. Neve derrete. Neve derretida = água. Água molha. Você não quer ficar com os pés molhados em temperaturas abaixo de zero. E, não, aquela bota que você tem guardada no fundo do armário não vai servir. Aliás, não esqueça que muita gente coloca sal na calçada quando neva e esse sal simplesmente destrói calçados mais frágeis. Essa aqui da Timberland tem me servido muito bem no últimos anos e essa aqui da Columbia é muito bem cotada.

cold

Cabeça e pescoço

Apesar de aquela história que diz que você perde X% de calor pela cabeça ser mentira, você precisa cobrir cada parte do seu corpo de modo a deixar o mínimo possível exposto. Isso significa gorros / bomber hats e um bom cachecol. Buffs são muito bons porque você não precisa enrolar no pescoço e também serve para cobrir a boca e o nariz se o negócio estiver feio (protip: não faça isso se você usa óculos). Lembre-se que cobrir as orelhas é fundamental. Lembre-se também que não é vergonha nenhuma usar uma balaclava.

E lembre-se…

Ande devagar e preste muita atenção para não escorregar no infame black ice. Escorregar no gelo não é nada glamouroso e os tombos tendem a ser espetaculares. Use hidratante (nos pés e mãos, inclusive) e passe um protetor labial periodicamente. Se a situação ficar muito braba, encontre um lugar quentinho para se abrigar (lojas, cafés, shoppings, etc.). Se você alugou um carro e não tem muita experiência dirigindo na neve, dê meia volta e devolva o carro. Dirigir na neve não é brincadeira e acidentes são extremamente comuns. Se você for pegar um avião durante os meses gelados, não esqueça de verificar o status do seu voo antes de sair para o aeroporto mesmo que não esteja nevando. Pode estar nevando na cidade de onde o seu avião está vindo e o seu voo pode estar atrasado ou pode ser cancelado mesmo com o céu azulzinho na cidade onde você está. E, como dizem por aqui, stay warm.

flights

 

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FullSizeRenderBruno Cardoso é entusiasta de Malört. Nas horas vagas faz cerveja em casa e torce pelo Chicago Blackhawks.

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2 Comentários

  • Adorei seu blog, sou do RJ e estou querendo fazer um intercambio para Chicago, porém gostaria de saber se vale a pena ir em Dezembro/Janeiro, pois como será inverno tenho receio de não conseguir aproveitar bem a cidade! ( Já fiz intercambio para Vancouver e gostei bastante, frio pra mim não é problema) mas algumas cidades tendem a ficar menos interessante no inverno, não seria o caso de Chicago não né ?

    Obrigada!

    • Oi Stéphanie, eu não moro em Chicago, mas já visitei a cidade algumas vezes e, baseado na minha experiência, tem muita coisa para ver e fazer em ambientes fechados. Os museus são excelentes, restaurantes e bares idem, a cidade tem bastante vida.

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