Serra da Gardunha: gastronomia, história e natureza no Centro de Portugal

Cerejeiras em flor no Fundão. Foto: Flávia Motta
Cerejeiras em flor no Fundão. Foto: Flávia Motta

Cerca de 50km separam a Serra da Gardunha da sua irmã mais famosa, a Serra da Estrela. Se na Estrela o queijo amanteigado da serra é o ícone gastronômico local, na Gardunha, um frutinho vermelho vem atraindo cada vez mais atenção: a Cereja do Fundão. É dela e da outras delícias da região da Gardunha que falamos neste post.

Cerejal no Fundão. Foto: Flávia Motta
Cerejal no Fundão. Foto: Flávia Motta

Fossem apenas boas cerejas e seria suficiente, mas há cerca de dois anos a Cereja do Fundão ganhou status de ícone na Serra da Gardunha e movimenta mais de 20 milhões de euros para a economia local. O número grandioso é resultado de um forte investimento da Câmara Municipal do Fundão num de seus produtos mais fortes desde sempre: a cereja. Hoje, ela se tornou um atrativo para centenas de visitantes – num volume que cresce 15% ao ano – para a região da Beira Baixa, no Centro de Portugal.

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Piqueniques e voos de balão nos cerejais

A época das cerejeiras tem início entre março e abril, quando começa a floração. Campos inteiros ficam tomados por flores brancas e quem vem pela estrada, ao olhar pela janela, vê os cerejais da Serra da Gardunha tomados por verdadeiras nuvens florais. Nessa época, os produtores do Fundão abrem os campos para visitas e experiências, que vão de plantios de cerejeiras e piquenique a passeios de bicicleta e voos em balão de ar quente.

Mesas de piquenique sobre as cerejeiras na Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta
Mesas de piquenique sobre as cerejeiras na Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta

Em maio, as frutas começam a dar outro tom aos pomares da Gardunha. Começa a apanha das cerejas e, além de turistas em visita aos cerejais, centenas de trabalhadores migram para a região – muitos imigrantes estrangeiros – para reforçar o trabalho agrícola. A época de Cereja do Fundão é anunciada com certo alarde pelo país e há rotas especiais de trens entre Lisboa e o Fundão nessa altura do ano.

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Cerejeira carregada no Fundão. Foto: Divulgação
Cerejeira carregada no Fundão. Foto: Divulgação

Cereja do Fundão e a responsabilidade social

Ao lado da laranja do Algarve e do ananás dos Açores, a Cereja do Fundão é daqueles produtos que orgulham os portugueses. E tem tudo para orgulhar ainda mais, já que foram criadas uma série de iniciativas vinculadas à marca. Levar o selo ‘Cereja do Fundão’ exige que o produtor atenda a condições relacionadas a valores ambientais, sustentabilidade e responsabilidade social. A marca prega o princípio do comércio justo e vem sendo trabalhado o encurtamento do caminho entre o campo e o consumidor para reduzir custos de logística e remunerar melhor os agricultores.

Apanha da cereja no Fundão. Foto: Divulgação
Apanha da cereja no Fundão. Foto: Divulgação

Além disso, a Cereja do Fundão é figura central em uma série de eventos gastronômicos anuais na Beira e no restante de Portugal. Desde a Festa da Cereja em Alcongosta, no início de junho, a lançamentos de subprodutos e a realização de uma rota gastronômica da cereja, que passa por Lisboa, Porto e cidades do Alentejo e do Algarve.

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Flores de cerejeira no Fundão. Foto: Flávia Motta
Flores de cerejeira no Fundão. Foto: Flávia Motta

Turismo de natureza e glamping na Serra da Gardunha

Mas se a Cereja do Fundão é um atrativo para a temporada de primavera/verão, a Serra da Gardunha tem atrações que justificam a visita o ano inteiro. Para os amantes de natureza, há uma variedade de rotas e caminhadas, como a Rota da Pedra d’Hera, que começa mesmo no concelho do Fundão e leva a um miradouro com vistas até a Serra da Estrela, ou a Rota da Marateca, especialmente interessante para observação de aves migratórias. A região também concentra oito circuitos de mountain bike – do fácil ao muito difícil.

Pôr-do-sol no glamping da Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta
Pôr-do-sol no glamping da Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta

A Serra da Gardunha também guarda um dos melhores locais de glamping (acampamento de luxo) da Europa, o Natura Glamping. Num espaço bem reservado, no topo de uma montanha, com vista privilegiada sobre a serra, alguns poucos domos (que até lembram estações meteorológicas) garantem uma experiência mais que confortável em meio ao verde. Com pequenos deques e composições que comportam de casais a pequenas famílias, as tendas ainda ganham o conforto extra de jacuzzis em algumas épocas do ano, tornando a observação do pôr-do-sol um momento ainda mais desejável.

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Aldeia histórica de Castelo Novo, na Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta
Aldeia histórica de Castelo Novo, na Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta

História e gastronomia local

Mas nem só a natureza atrai na Serra da Gardunha. A região compõe a rota das 12 aldeias históricas de Portugal. É ali que fica Castelo Novo, uma vila medieval com casario muito típico em granito. A cidade foi fundada em terras doadas pela monarquia portuguesa aos cavaleiros da Ordem dos Templários depois da reconquista de Portugal aos árabes, no século XIII. Castelo Novo também integra a rota do Interior de Portugal – Caminho do Leste do Caminho de Santiago. A atmosfera é mágica e o lugar é uma ótima paragem para quem quer viajar no tempo e descansar.

Casario da aldeia histórica de Castelo Novo. Foto: Flávia Motta

Finalmente, não se pode falar da Serra da Gardunha, da Beira e do Fundão sem mencionar a gastronomia local. Come-se muito bem ali e os enchidos e queijos se destacam. Ainda em Castelo Novo, visitamos a criação de ovelhas da Quinta do Barrigoso, um turismo rural ainda pouco explorado, e fizemos uma prova harmonizada de queijos e vinhos.

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Ovelhas da Quinta do Barrigoso. Foto: Flávia Motta
Ovelhas da Quinta do Barrigoso. Foto: Flávia Motta

Queijos e enchidos da Beira se destacam

Os queijos de cabra e de ovelha da Soalheira da Quinta do Pomar são feitos com leite das ovelhas do Barrigoso. A queijeira Ssonia Marroyo, espanhola radicada na Gardunha, nos leva a uma viagem de sabores que começa na leveza do requeijão fresco, passa pelo exotismo do queijo com infusão de lavanda e termina na picância do corno (eu não inventei esse nome). Para acompanhar, vinhos da Adega Cooperativa do Fundão. Tudo muito local e saboroso.

Prova de queijos da Quinta do Pomar e vinhos da Adega do Fundão, na Quinta do Barrigoso. Foto: Flávia Motta
Prova de queijos da Quinta do Pomar e vinhos da Adega do Fundão, na Quinta do Barrigoso. Foto: Flávia Motta

No município do Fundão, o restaurante Hermínia é uma boa opção para provar uma comida regional bem feita, com ingredientes de boa qualidade e muito farta. Do nosso almoço ali, destaco as Cherovias à Moda da Beira (uma raiz que parece uma cenoura branca, cozida e empanada), o Arroz de Carqueja com Enchidos (bem comida de vó) e as Papas de Carolo, um doce à base de milho.

Vestígios dos incêndios de 2017 ainda marcam a Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta
Vestígios dos incêndios de 2017 ainda marcam a Serra da Gardunha. Foto: Flávia Motta

Nos incêndios de 2017, os piores da história de Portugal, a Serra da Gardunha foi um dos focos principais e só o Fundão acumulou cerca de 14 milhões de euros em prejuízos. A recuperação ainda está longe de ser concluída. Assim, visitar a Gardunha, além de fazer bem para o seu espírito e o seu paladar, vai fazer bem também à economia local e a uma gente que tem orgulho de mostrar o que sua terra tem para oferecer.


Flávia Motta viajou à Serra da Gardunha a convite da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) pelo projeto Taste Portugal.

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