Como é morar em São Paulo sem carro

Não sei dirigir. Tirei minha carteira de motorista aos 18 anos, depois de 50 treinos. Depois disso, rolaram algumas desventuras em série e acabei deixando de lado a ideia de guiar um carro. Tenho medo. Pânico. Pavor. E vontade zero.

No Rio de Janeiro, sempre me virei bem sem carro – mesmo morando por um tempo em Niterói. Sempre andei de ônibus, van, barca, táxi. Nunca nutri o desejo de comprar um carro. Quando mudei para São Paulo, há 2 anos, o que mais ouvi é “agora vai ter que dirigir!”. 

Não, não vou não. Primeiro porque comprar um carro demanda um dinheiro que não tenho. Segundo que, mesmo se tivesse esse dinheiro, preferia aplicar em coisas que me são mais importantes, como viajar nas férias e pagar contas em dia. Terceiro que é possível, sim, viver em São Paulo sem carro

Não vou ser hipócrita e dizer que é agradável pegar um trem lotado de manhã na estação da Sé. Ou que é bacana ficar em pé no busão engarrafada na hora do rush. Nem vou mentir e dizer que, de vez em quando, não pego caronas com os amigos motorizados. Claro que pego. Mas no meu caso, dentro da minha rotina, era e é perfeitamente possível não ter um carro.

Ah, sim: uma das minhas grandes frustrações é não saber andar de bicicleta 🙁 Numa cidade que dá espaço para o ciclista e estimula o uso desse meio de transporte – algo que, a meu ver, põe São Paulo em sintonia com muitas das cidades sobre as quais falamos aqui no Almost Locals – , andar de bike seria, com o perdão do trocadilho, uma mão da roda (vou aprender, juro!). Para quem pedala, existe o Bike Sampa, que aceita até bilhete único.

Uma vez em São Paulo, a primeira providência a ser tomada foi procurar um apartamento perto de alguma estação do metrô. Com o metrô de São Paulo é possível ir a muitas regiões e pontos diferentes da cidade. É um meio de transporte que funciona. A combinação metrô + trem também é bem prática. Uso todos os dias e não tenho do que reclamar – fazendo a ressalva de que não trabalho das 8h às 17h, né? Entre 17h30 e 18h30, o trem, obviamente, fica lotado. Mas na maioria dos horários vou e volto sentada, e muitas vezes chego ao meu destino antes dos amigos que estão nos seus carros, engarrafados na Marginal Pinheiros. 

Também ando muito de ônibus em São Paulo. Por conta dos corredores exclusivos para busões, costuma ser – dependendo do trajeto, claro – um meio de transporte rápido. Aplicativos como o Moovit e o próprio Google Maps (que vem anunciando em estações de metrô e em pontos de ônibus) facilitam muito a vida de quem não tem carro em SP, com horários de chegada e saída bem estimados. Apps como o Cadê Meu Ônibus e a ferramenta Olho Vivo, oferecida pela SP Trans (nota da redação: o site às vezes fica um pouco lento…), também dão a localização quase que em tempo real dos coletivos. Ótimo!

Quando o táxi é necessário, tento combinar com o uso de metrô, trem ou ônibus, e aproveito as promoções de aplicativos. O Uber também vale a pena – principalmente à noite ou de madrugada. Durante o dia, em determinados horários e vias, táxis também podem circular nos corredores exclusivos de ônibus, ao contrário do Uber. E, claro, quando se tem companhia, vale a pena dividir o valor das corridas. Não fica tão pesado. 

“E quando você vai ao mercado, como carrega as compras?”, alguém há de perguntar. Bom, como acontece com boa parte da população nacional, a geladeira da minha casa é pequena 😉 Não faço compras grandes para o mês inteiro, e sim compras menores por quinzena ou semana. Sempre ando com uma sacola retornável na bolsa, assim sempre posso atualizar a lista de compras na volta do trabalho nos mercados mais próximos de casa. Não carrego peso, nem gasto com táxi. Uma vez por mês vou a um supermercado maior e, aí sim, compro os itens mais pesados e retorno de táxi – R$ 15 a corrida, normalmente. 

Moro razoavelmente perto de comércios de todos os tipos, mas vamos combinar: estamos em 2015, né? Supermercados, farmácias, restaurantes estão a um telefonema – ou clique – de distância. E caminhar é bom, gente! Juro. Ontem mesmo precisava ir ao correio, à papelaria e ao mercado. Fui e voltei a pé. Andei 5 quilômetros, sobrevivi, e ainda bati minha meta de passos do dia. Às vezes é bom lembrar que ninguém nasceu diante do volante, né? 

Claro que eu entendo que, para muitas pessoas, o carro é praticamente a única alternativa de transporte – mesmo com todo o trânsito, pode ser melhor do que pegar três ônibus, um trecho de metrô e mais um pedação de trem. Mas acho que, para muita gente com uma rotina parecida com a minha, é possível, sim, uma vida não motorizada. 

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