Projeto em Lisboa busca integrar o velho e o novo em bairros históricos. Conheça o Rés do Chão

Sede do Rés do Chão. Foto: Facebook / Rés do Chão
Sede do Rés do Chão. Foto: Facebook / Rés do Chão

A região do São Bento, em Lisboa, é uma das mais antigas e emblemáticas da cidade. Bairro onde fica a Assembleia da República, ele é também um ponto central na rota do mítico elétrico 28. E apesar de ser local de uma das principais sedes do Governo Português e, em consequência disso, ter uma vida no entorno da política e do poder econômico, o São Bento vinha sofrendo certo abandono.

Era o ano de 2013 quando quatro amigas arquitetas – Margarida Marques, Mariana Paisana, Marta Pavão e Sara Brandão – notaram isso nos seus trajetos de rotina, quando passavam pelas ruas Poço dos Negros e Poiais de São Bento, artérias centrais do bairro. Foi aí que elas tiveram o estalo para começar um movimento de repotencialização do São Bento. É assim que surge o Rés do Chão.

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Sede do Rés do Chão. Foto: Facebook / Rés do Chão
Primeira sede do Rés do Chão. Foto: Facebook / Rés do Chão

Reocupar para revitalizar

Para esclarecer, rés do chão é a expressão usada pelos portugueses para se referir aos pisos térreos dos imóveis. Foi o nome escolhido para o projeto porque as arquitetas perceberam que um dos fatores essenciais para revitalizar o bairro era dar nova vida aos espaços desocupados no rés do chão dos prédios. Tradicionalmente voltados para o comércio, muitos desses imóveis haviam fechado nos últimos anos, por crise econômica ou envelhecimento dos proprietários, ficando abandonados. Insegurança, degradação do patrimônio e empobrecimento do comércio e dos serviços locais são consequências diretas disso.

O primeiro financiamento para o Rés do Chão veio ainda em 2013, através do prêmio FAZ – Ideias de Origem Portuguesa, da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi quando Margarida, Mariana, Marta e Sara começaram a identificar e intermediar os espaços e receber jovens empreendedores em busca de lugar para trabalhar.

Parte do prêmio foi aplicada no espaço piloto do projeto e no lugar de uma antiga mercearia, que ficou fechado por dez anos, surge a sede do Rés do Chão, um misto de oficina, coworking e vitrine para novos criadores. Desde então vieram apoios financeiros da Câmara Municipal de Lisboa e ainda uma indicação no torneio de inovação social do Banco Europeu de Investimento.

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Mapeamento de serviços na região de São Bento. Foto: Facebook / Rés do Chão
Mapeamento de serviços na freguesia da Misericórdia, onde fica o São Bento. Foto: Facebook / Rés do Chão

Integrar antigos e novos habitantes

Mas apenas ocupar e reabilitar um espaço era pouco para aquele grupo de arquitetas. O projeto do Rés do Chão contempla o chamado “Triângulo de São Bento” como um todo. O foco principal é regenerar o espaço urbano, através da requalificação de comércios antigos, ocupação de espaços e integração dos antigos habitantes com os novos ocupantes – tanto moradores quanto turistas.

A ideia de ocupação do espaço público e integração social, para o Rés do Chão, passa também pela organização de eventos efêmeros que de fato coloquem as pessoas juntas nas ruas do bairro. Assim, surgiram outras atividades, como a Feira Vizinha, um pequeno mercado mensal com comerciantes e artesãos locais; uma agenda de bairro que passou a divulgar os eventos da região, e também a organização de eventos em rede, com a participação de vários comerciantes locais.

Gerente de projeto do Rés do Chão, Manuel Antonio Pereira cita Fernando Pessoa para definir a reação dos moradores. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. É que, regra geral, os mais antigos costumam ser reativos a certas novidades. Mas se aproximar da comunidade e perceber com ela as soluções para o bairro é uma das tônicas do Rés do Chão. A lista de soluções possíveis inclui ainda capacitar o comércio local para se tornar mais resiliente às mudanças de perfil do bairro.

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Parklet na Rua Poço dos Negros. Foto: Facebook / Rés do Chão
Parklet na Rua Poço dos Negros. Foto: Facebook / Rés do Chão

Efeito contaminador e rejuvenescedor

Vizinho do Chiado e do Cais do Sodré, o São Bento é um dos bairros lisboetas que mais vem sofrendo especulação imobiliária e ‘turistificação’ dos imóveis. A mudança de perfil de habitantes afeta principalmente comércios e serviços essenciais, como peixarias e talhos (os açougues). Em quase três anos de atuação no São Bento, o Rés do Chão viu diminuir de 40% para 20% o volume de imóveis térreos desocupados na Rua do Poço dos Negros.

O espaços foram ocupados por comércios e atividades voltadas para os locais, como a loja ateliê A Avó Veio Trabalhar, mas também com um olhar mais voltado ao turismo, caso do café The Mill e da casa de sucos YAO. “Houve um efeito quase contaminador de espaços mais novos e rejuvenescedores”, conta Manuel, ainda que preocupado com o novo desafio que é fazer a integração dos novos e dos antigos comércios. Tal resultado levou a Câmara de Lisboa a não considerar mais a região como zona de intervenção prioritária, o que fez o projeto perder um valioso suporte financeiro.

Feira Vizinha. Foto: Facebook / Rés do Chão
Feira Vizinha. Foto: Facebook / Rés do Chão

Os resultados positivos do Rés do Chão vêm repercutindo de formas diversas. Há juntas de freguesia (as regiões administrativas daqui) procurando o Rés do Chão para replicar o modelo em outras zonas de Lisboa, no Norte de Portugal e até fora do país.

Com a missão na Poço dos Negros praticamente cumprida, o projeto muda sua sede para a Rua Poiais de São Bento, bem próxima à outra mas com uma personalidade comercial mais diversa e desafiadora, por ser mais voltado aos serviços e também um local com menos circulação de pessoas. O que o Rés do Chão busca agora é, também, capacitar a comunidade local para seguir adiante de forma autônoma com o projeto de revalorização do bairro, com a participação de todos que vivem ali. “O arquiteto, o designer, o barbeiro e o padeiro têm o mesmo protagonismo no bairro”, resume Manuel.

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