Paris depois da sexta-feira 13, ela balança mas não cai

Aconteceu. Aquilo que a gente morre de medo e vive tentando evitar. Nem sei como começar um texto desses, mas acho que falar é preciso, viver é preciso.  E sobretudo para que as pessoas entendam a importância de continuar.

Numa sexta-feira 13, dia que normalmente serve apenas como piadas bobas e nomes de filmes de horror B, a cidade mais linda do mundo, essa que eu escolhi chamar de casa, sofreu um ataque terrorista violentíssimo e generalizado. Os detalhes, a mídia se ocupou de cobrir. Sobre o sentimento individual, prefiro me reservar a este texto e, principalmente, me abster das opiniões políticas. Não sou francesa, mas sou humana. Vivo em Paris e amo a minha cidade. Me senti como todos os outros, invadida, bastante assustada e muito, muito triste. A semana seguinte foi muito difícil. Todo mundo abalado, um luto coletivo. Nessas horas a gente pensa que poderia ser com a gente e com quem a gente ama.

No início, fiquei surpresa como as pessoas foram fortes e decidiram continuar a viver. A sair, assistir shows, a pegar o transporte e sobretudo a sentar de novo em terrasses.

Depois entendi. A mensagem que os parisienses transmitem ao mundo depois do que aconteceu é: a vida continua, não vamos deixar de vivê-la por medo. O medo impede nada mais que a liberdade, um conceito muito francês pelo qual eles lutaram durante muito tempo. Foi praticamente um protesto, do tipo: ninguém vai me privar da liberdade de ir e vir. Minha amiga disse que foi a um show e que os artistas, antes de começarem a tocar, propuseram ao público de gritar bem forte, para mandar o medo bem longe. E todo mundo gritou.

O lema oficial de Paris, que foi utilizado por muitos nesses dias, é a frase em latim: Fluctuat Nec Mergitur. Isso quer dizer, em tradução (bem) livre, “pode ser sacudida pelas ondas, mas não se afunda”, ou em bom português do Brasil, “Ela balança, mas não cai”.

E quer saber, é isso mesmo. Paris é maior e mais forte. Paris é linda, bate cabelo e se joga. As pessoas que eu vi por aqui mostram isso, depois do período de luto e de reserva, a vida vem retomando seu ritmo, com a cautela que todo trauma impõe, mas firme e muito forte. E continuamos seguindo em frente, orgulhosos de viver na pele a cidade e a cultura mais amada e desejada do mundo.

Em Paris, a gente sentiu medo, negou, sentiu raiva, aceitou, prestou homenagem às nossas vítimas e enfim, viveu. E a vida continuou.

O metrô funciona normalmente. Os museus estão abertos, o mercadinho de natal e a torre também. E nos teatros e casas de espetáculos as programações continuam de pé, porque, afinal de contas, o show tem que continuar.

Se você vier para cá visitar a gente, continue a reservar aquele restaurante da moda com antecedência, continue a se preparar para filas e lugares lotados. A gente balançou mas não caiu. As ruas estão cheias, as lojas abarrotadas, o trânsito caótico nas horas de pico e os bares barulhentos. As luzes acesas, as carinhas no metrô quase sempre amarradas, como de praxe.

Vive la résistance.

 

 

View on Paris
Foto: Igs Ecoles

 

 

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