Coisas que você nunca vai escutar sair da boca de um parisiense

Anedotas da vida parisiense entre-murs vista e explicada por uma brasileira quase local. Coisas que você nunca ou quase nunca ouve sair da boca de um parisiense tipico. Este texto é baseado no artigo visto aqui! As imagens são da artista Agathe Monnier.

Sobre o transporte:

almost_locals_paris_plano_faux_paris_agathemonnier

“Adooooooro a linha 13!”

“Peraí, estou chegando em dois minutos, só vou estacionar.”

Quer estacionar? Quando tem carro (quase nunca) o parisiense precisa dar mil voltas no quarteirão, se espremer entre dois carros – estacionar significa realmente encostar nos carros vizinhos – achar e pagar o parquímetro ou a garagem… boa sorte, esses dois minutos estão mais para trinta!

“Esse Vélib é tão levinho!”

O Vélib é uma bicicleta coletiva, utilizada por toda a população da cidade e seus turistas. Até tem um post do AL explicando como utilizar a “bicicletinha”. Em comparação às bicicletas normais ela é bem pesada. Mas em sua defesa, ela precisa ser resistente para aguentar os trancos e barrancos de alguns usuários mais brutos.

“Alô ? Então, eu vou chegar dez minutos mais cedo porque eu peguei o RER A entre Gare de Lyon e Châtelet-les-Halles!”

Problemas recorrentes no RER A são motivos de atrasos constrangedores. Probabilidade de atraso muito elevada.

“Adooooro a linha 13”

O metrô já foi motivo de conversa aqui no AL, e a linha 13 é a encarnação do pesadelo de um parisiense. Uma linha simplesmente insuportável durante as horas de pico. Se for escolher hospedagem/ moradia tente evitar depender dessa linha.

“É incrível, mas eu nunca peguei o metrô no sentido errado.”

Sempre acontece: você está ali super distraído, conversando ou ouvindo música, no modo automático e pega o metrô sem olhar. E bim! Se você tiver sorte percebe logo, senão, adicione bem uns 20 minutos para conseguir voltar atrás.

“ O metrô para mim é um lugar de charme, ele é, ao mesmo tempo, anônimo e familiar. Já tive encontros incríveis ali. Não estou idealizando o metrô, é um saco de vez em quando, mas têm bem os seus momentos de graça.”

Não existe parisiense certo da cabeça que fala isso. Bom… a ex-candidata à prefeitura de Paris, Nathalie Kosciusko-Morizet, do UMP (partido de direita que agora se chama les républicans) disse essa frase, como visto aqui. Ela deixou bem claro o quanto não pega o metrô….#fail

 

Sobre a cidade e  vida na cidade:

almost_locals_paris_plano_faux_paris

“Querida, hoje vamos olhar as estrelas” / -“Olha ali a Grande Ursa” -“Não, é um avião.”

“ Vem, a gente vai comer/beber alguma coisa numa terrasse no Champs-Elysées”

A Champs Elysées é linda, magnífica, exuberante…e muito cara e turística. Parisienses normais costumam frequentar terrasses onde a demi-pinte (250ml) de cerveja não custa 10€.

“Chéri, hoje à noite a gente vai olhar as estrelas.”

Paris se chama « Ville Lumière » e não é por acaso. Toda essa iluminação de cidade grande meio que impede qualquer um de ver o céu em seu estado natural. Uma outra é.. o tempo é muitas vezes nublado mesmo graças à esse clima legal do norte da França. Ver as estrelas pode ser um tanto quanto ambicioso…

“Eu prefiro viver no subúrbio e ter um jardim.”

Viver em Paris é viver em pequenos espaços e pagar caro. Viver no subúrbio é ter casas maiores por menores preços e até jardins. Mas as pessoas continuam preferindo viver no centro e sobretudo os parisienses da gema, como os nossos cariocas da gema, não largam o osso e preferem o centro mil vezes que as redondezas.

“Esse aluguel  200 € por mês é realmente caro.”

Primeiro que com 200€ você não aluga nem um armário. Até matéria na Vice esse assunto ganhou. Muitos estudantes vivem em 17-20 m2 por quase 1000€. Se você souber de um aluguel de apê decente por 200€: ME AVISA.

“Nossa de verdade, com todos esses pombos eu me sinto tão próximo da natureza.”

Pombos, esses ratos alados do infeno que infestam Paris. Criaturas desgraçadas, mutantes e sem medo da morte que dão rasantes quando você menos espera. Here, there, everywhere…

 “Essa transformação do marché des Halles em Shopping Center foi realmente uma ideia genial.”

Começou em 2010 e bagunçou tudo ali no centrão. Obras, tapumes, dificuldade de locomoção. Já falei algumas vezes sobre o pavor que tenho dos Halles aqui e aqui. A previsão do término é para 2018. Precisa pegar o RER lá? Segura na mão de Deus e vai…

“Você não acha que as calçadas estão um pouco mais limpas depois que a gente inventou a multa para o cocô de cachorro não recolhido?”

Franceses tem « mania » de educação, em teoria. Porém, porque diabos não recolhem os cocôs dos cachorros? Se existe multa para isso, ninguém tá nem aí. Você muitas vezes é obrigado a olhar para o chão ao invés de para a frente. Porque senão a próxima marca de cocô de cachorro pisado na rua será a sua! Da última vez que fui ao Brasil, reparei nessa diferença enorme! Muito mais sujeira do pet na capital francesa!

“Desculpa, não escutei o telefone tocar porque as crianças gritavam na sala de jogos e eu estava estendendo a roupa no varal da àrea de serviço.”

Se você não é MUITO rico, sua casa em Paris não vai ter uma “sala de jogos” e nem uma “àrea de serviço”. Você provavelmente joga videogame na televisão da sala bem ao lado do seu varal móvel e coloca os lençóis para secar nas portas dos quartos. (otimização de espaços ou #parisdadepressão?)

“Hmm, qual dessas várias creches a gente vai escolher para o pequeno Jeanzinho ?”

Paris é supepopulada e conversando com amigas francesas e brasileiras vivendo na capital, descobri que conseguir uma creche para deixar seu filho enquanto você vai trabalhar é algo simplesmente impossível. Precisa se inscrever na lista antes mesmo de decidir ficar grávida (brincadeira, mas quase). Aliás pelo que ando escutando, ser mãe parisiense é bem complicado também.

“Chut, estou escutando o silêncio.”

Paris, suas sirenes, suas obras, suas buzinas de carros, seu vizinho que toca bateria/ piano/ violão. Sua vizinha que acorda às 06 da manhã e já calça o salto alto. Caminhão de lixo às 3am? E os scooters envenenados…? Que bel prazer -_-

«Espera, não posso falar, tou no meio de uma lufada de ar puro ».

Com os picos de poluição que temos, nem preciso explicar.

“Ebaaa, mais um cara tocando acordeão!”

Uma vez é lindo, duas, fofo, três, tá bom… toda hora que você entra no metrô? Bof bof..

“Olha só, esse verão não vai ter obras em Paris”.

Já viu o post do AL sobre todas as obras que vão acontecer em Paris em 2016? Haha.

 

Sobre o turismo:

almost_locals_paris_plano_faux_paris_agathemonnier_1

“Esse Vélib é tão levinho”

“ E se a gente fizesse um tour de bateau-mouche?”

HEIN?!

“Quanto custa a visita guiada do Château Rouge?”

Château Rouge não é uma Castelo Vermelho, infelizmente. É um bairro bem popular onde você encontra moças da noite, uns caras que…ficam o dia inteiro vendo a vida passar ao som de música alta e vendedores e usuários de entorpecentes. (Já morei lá, pode confiar, não existe nenhuma visita guiada de nada.)

“Nossa que coisa boa, tou feliz demais de levar minha visita à Torre Eiffel neste domingo de sol”.

HEHE. Nãaaaao.

 

Sobre os hábitos, estilo de vida:

almost_locals_paris_plano_faux_paris_agathemonnier_2

“E se a gente comprasse umas latinhas para ficar de bobeira em porte de la Chapelle” / “euh..Não?”

“ Brunch”, o que é isso, uma marca de chocolate?

O Brunch é moda antinga, desculpa para acordar tarde dos parisienses. Até a língua francesa abraçou o verbo “bruncher”. Impossível um parisiense não saber o que é isso. Até post no AL já teve! 😉

“ A gente se encontra na máquina de chá?”

Parisienses, café e cigarro. Combinações tão clássicas como Vermelho, Branco e Azul. Viciados em café…

“ O que é um hipster?”

Como toda cidade grande que se preze, Paris tem os seus. Mas acho que a coisa meio que tomou forma aqui e eles estão muito o tempo todo e em todo o lugar!

“Claro que eu sou um bôbô !”

Não confundir com hipster. O Bo-bo é a sigla para “Bougeois-Bohème”. A socióloga Camille Pegny definiu em: uma pessoa que ganha bem, mas não extraordinariamente, geralmente diplomada e que aproveita das oportunidades culturais e vota na esquerda. Hoje é utilizado de maneira pejorativa para designar pessoas bem-de-vida que se proclamam de esquerda mas agem de maneira contraditória à esses tais “valores” defendidos. Ou seja, o autêntico jovem-adulto parisiense médio. Mas ele não admite.

“Esta refeição foi preparada com legumes e verduras comprados no metrô.”

Em algumas estações, bizarramente, existem umas banquinhas de frutas e verduras. Bizarro porque o metrô é um lugar BEM sujo e quem é que sabe de onde vem essas frutas? Aliás…quem já comprou essas frutas? Me apresenta?

“Nossa o buffet de Sushi Xing-Ling embaixo da minha casa, é tão melhor que aqueles falsetas da rua Saint-Anne !”

Como em muitas outras cidades do mundo, aqui a maior parte dos restaurantes “japoneses” são de outra origem asiática, principalmente chinesa. A rua Saint-Anne é uma rua do 2ème que tem vários restaurantes asiáticos e os japoneses costumam ser comandados por japoneses do Japão mesmo.

“Bora comprar umas latinhas de cerveja enormes e ficar de bobeira la em Porte de la Chapelle hoje à noite ?”

É perigoso e só tem gente “chelou” (estranhíssima). Quem costuma fazer isso são os frequentadores do lugar, bem esquisitos.

“Ufa, não tinha nem uma alma viva no Galeria Lafayette sábado passado.”

Sempre cheio no fim de semana. Sempre.

 “Olha neste momento da minha vida tudo é maravilhoso. Eu estou completamente satisfeito.” 

Isso é cultural, é o “charminho” deles. Heheh. Um parisiense de verdade sabe râler (reclamar) e faz parte da interação social local. Ele pode até falar essa frase, mas sempre vai ter um “mas, porém, todavia, contudo”.

 

*Este texto foi inspirado por este artigo em francês.

*Foto de destaque: Time Out

 

 

Gostou? Leia mais aqui

PAR: Vrai ou Faux – mitos e verdades sobre Paris e parisienses

PAR: La vie n’est pas toujours rose – 6 coisas que não gosto em Paris

Siga Almost Locals no Instagram
Não perca nenhum post Almost Locals no Twitter
Acompanhe a página Almost Locals no Facebook

Comments

comments

Tags desse artigo
More from Jordana Felisberto

5 francesas para seguir no Instagram e se inspirar

Todo mundo tem, secretamente ou não, fontes de inspiração. Claro que na...
Leia Mais