O surrealismo do Museu Salvador Dalí

Uma das grandes personalidades do século XX nasceu, morreu e foi entrerrada na pequena cidade de Figueres, na região da Catalunha, na Espanha. Salvador Dalí revolucionou a arte com suas pinturas sobre o mundo onírico, surreal e seus significados para lá de subjetivos. Virou um ícone pop global. Uma figura controversa: Catalão, Dalí não escondia seu apoio ao ditador Franco e posteriormente, à monarquia espanhola. Um homem com atos e declarações absurdas, bem diferente do que os moradores de Figueres e Cadaqués conheciam na intimidade. Essas e outras histórias sobre o mito foram contadas pela Mercè Donat, local que me acompanhou em um tour no Museu Salvador Dalí.

O Museu Salvador Dalí fica ao lado da sua Fundação, um edifício cheio de códigos surrealistas dalinianos. Ovos coroam o edifício e até as árvores lá plantadas foram escolhidas de propósito, pois são as típicas da região do Empordà (onde fica Figueres) e resistentes ao insistente vento que caracteriza a zona. Mercè me contou que os pães que ornam toda a fachada exterior do prédio da Fundação Salvador Dalí são típicos e unicamente feitos em Cadaqués, cidade onde o artista passou boa parte do seu tempo antes e depois da fama.

Foto: Sarah Sioli Galvão

Para entender um pouco do mundo de Salvador Dalí, é preciso descobrir mais sobre Figueres e Cadaqués. As duas cidades ficam na região catalã do Alto Empordà, na Costa Brava, ao norte de Barcelona. A área é conhecida pelas paisagens: praias mediterrâneas, vinhedos e oliveiras compõem o lindo cenário, com fortes contrastes entre o azul, verde e o marrom das pedras e da terra. O vento que sopra por lá é parte importante do folclore e da cultura local. A chamada Tramontana já foi até protagonista de um conto do Gabriel Garcia Marquez. Sentir sua força na pele (e principalmente nos cabelos) te conectará melhor com a natureza do lugar. Todos esses elementos naturais da região são temas e se repetem nas obras de Salvador Dalí. É só reparar!

A beleza natural da região e a proximidade com a França fez com que essas cidades fossem um dos destinos preferidos de artistas como Picasso, Duchamp e Miró, sempre buscando inspiração nas lindas paisagens locais. Dalí nasceu por ali e foi estimulado por essa cena, descoberto pela família Pichot, artistas e mecenas da região.

Quando você vê ao vivo os cenários de Figueres, Cadaquès, Port Lligat e o resto do Empordà, vai reconhecer várias paisagens dos quadros de Dalí e entender de onde vieram vários ícones usados em sua obra durante os anos. Visitar o Museu Salvador Dalí é um mergulho nesse mundo.

As obras principais do artista estão espalhadas em outros museus do planeta. Não vá esperando ver os block busters. O interessante desse lugar é que foi projetado pelo próprio Dalí, que criou as obras baseadas em conceitos que explicassem sua infância, paixões e inseguranças. A ode definitiva à sua persona, por ele mesmo. Mais Dalí que isso, impossível.

Cheios de quadros com duplas ou mais interpretações, Dalí brinca um pouco com a ilusão de óptica para impressionar e divertir o visitante, como a Sala Mae West. Outro ponto interessante é a ala dedicada às jóias feitas pelo artista. Absurdas, exóticas, surrealistas e claro, feitas com pedras raras. Afinal, Dalí era um excêntrico.

Parte da obra-homenagem à Mae West. Foto: Sarah Sioli Galvão

Nosso tour pelo Museu Salvador Dalí com a Mercè durou 2 horas. Durante o passeio, ela contou para a gente o contexto da vida do artista por trás de vários quadros. Desde coisas que impressionavam o pequeno Dalí e que mais tarde, se tornaram objetos de sua obsessão artística até suas neuroses depois da fama. Gala, a mulher, musa e empresária de Dalí está presente em todas as partes. No museu, dá para sentir a influência enorme que essa mulher exercia em sua vida.

Apesar dessa ligação fortíssima que Dalí tinha com Gala, no final da sua vida ele decidiu ser enterrado no museu. Por isso, o hall do mesmo é impressionante, já que o teatral Salvador o projetou para ser sua última casa.

Dalí era fã de tudo relacionado à aristocracia e por isso, se auto-proclamou Marquês dele mesmo. Foto: Sarah Sioli Galvão

Visitar o museu com uma guia foi bem interessante para mergulhar no universo de Salvador Dalí e também, em uma das regiões mais bonitas e mágicas da Catalunha. Apesar de Figueres ser uma cidade não muito impressionante, o Museu Salvador Dalí vale totalmente a visita. Se puder, pegue o carro e vá para Cadaquès. Essa sim, uma cidade encantadora, com suas casas brancas, o azul do Mar Mediterrâneo, frutos do mar deliciosos e é claro, a Tramontana uivando.

Como chegar em Figueres e no Museu Salvador Dalí?

Mais fácil, impossível. Existem trens de alta velocidade saindo da estação Barcelona-Sants. A viagem dura 55 minutos no total e custa, ida e volta, 33,60 euros. O trem é novíssimo e muito confortável. Veja horários e compre sua passagem no site da Renfe. Ao chegar na estação, existem ônibus que te deixam a 5 minutos caminhando do museu. A passagem desse ônibus custa 1,70 euros. Dá para fazer um bate-volta de Barcelona até Figueres para visitar o Museu Salvador Dalí. Vale a pena dar uma volta pela cidade. Apesar de não ser muito bonita, as ruas da parte antiga e a Rambla de Figueres têm seu encanto.

Edifícios em Figueres. Foto: Sarah Sioli Galvão

É possível também ir de carro, porém a viagem de Barcelona até Figueres dura aproximadamente 2 horas. A vantagem é poder fazer uma dobradinha com Cadaqués, que fica a 40 minutos de lá. A estrada para Cadaqués é bem sinuosa e por isso, não recomendamos que você faça o trajeto à noite. O melhor é dormir por lá para explorar bem as praias e a região, uma das mais bonitas da Espanha. E claro, fonte de inspiração de várias obras de Salvador Dalí e outros artistas importantes do século XX.

Qual a melhor época para ir à Figueres?

Para aproveitar também as praias do Alto Empordà na mesma viagem, recomendamos uma viagem entre maio e início de outubro. Mas se você estiver passando por Barcelona em outra época e quiser muito conhecer o Museu Salvador Dalí em Figueres, não tem problema. Eu mesma fui lá em fevereiro em um lindo dia de sol e, claro, muito vento da Tramontana. Dia delicioso com temperatura ao redor de 13 graus. Ou seja, dá para visitar Figueres o ano inteiro.

Como faço um tour guiado ao Museu Salvador Dalí?

Fizemos nosso tour com a Mercè Donat e recomendamos! Ela nasceu e mora em Cadaqués e por isso, conhece tudo da região. Seus pais e avós conheceram Salvador Dalí, e por isso, Mercè tem histórias de como era a vida do mesmo, contadas pelos vizinhos das pequenas cidades. Além desse tour, ela também oferece outros em Cadaqués.

Para reservar um passeio, acesse a página da Mercè, a Rutes Cadaqués. O tour que fizemos no museu foi dos Códigos Dalinianos em Figueres e custa 15 euros por pessoa, por duas horas.

Onde comer em Figueres?

Para completar o tour Salvador Dalí em Figueres, uma refeição no Duran Hotel e Restaurante é obrigatória. Lá era o único restaurante de Figueres onde Dalí levava seus amigos de todas as partes do mundo para banquetes.

Pelo seu jeito excêntrico e grande fã de tudo relacionado à realeza (Dalí acreditava ser uma figura monárquica), espere encontrar no Duran um clima senhorial. Cadeiras douradas com brasões e um serviço formal, porém amigável. Fui durante o horário do almoço e toda a clientela tinha mais de 60 anos. Ou seja, um local realmente tradicional na cidade. É possível visitar a sala onde Dalí ia comer com sua entourage e ver nas paredes as fotos históricas desses jantares.

Sala privada do Restaurante Duran, o preferido de Dalí em Figueres. Foto: Sarah Sioli Galvão

Peça para o maître (sim, em um lugar tão tradicional, é claro que existem vários deles) te levar ao salão de café da manhã do hotel, no andar superior. Dalí pagava as contas das suas refeições no Duran com quadros para a família do hotel. Por isso, apesar da decoração simples e datada, a sala deve ter alguns milhões de dólares em obras pouco conhecidas do artista.

O menu de almoço custa 20 euros com entrada, prato principal e sobremesa. A comida é bem executada e tem fortes influencias catalãs, como o canelone gratinado, peixes frescos e cortes de porco com feijão branco.

Prato do menu de almoço do Duran. Foto: Sarah Sioli Galvão

* A Sarah fez um bate-volta de Barcelona à Figueres a convite do Turismo da Costa Brava, produzindo uma série de conteúdos para explorar e descobrir essa linda região da Catalunha.

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