Conheça o Mulheres Rodadas, bloco mais feminista do carnaval do Rio de Janeiro

As fundadoras do bloco Mulheres Rodadas; Débora Thomé e Renata Rodrigues. Foto: Marcelo Valle
As fundadoras do bloco Mulheres Rodadas; Débora Thomé e Renata Rodrigues. Foto: Marcelo Valle

Há três carnavais, o bloco Mulheres Rodadas sai pelas ruas do Rio de Janeiro para mostrar seu feminismo musicado, purpurinado, engajado e – por que não? – divertido. Liberdade e empoderamento são apenas algumas das bandeiras levantadas pelo bloco que, a cada ano, reúne mais pessoas para mostrar que carnaval é, também, um espaço de luta.

Jornalista e cientista política, Débora Thomé é uma das fundadoras do Mulheres Rodadas. Ela bateu um papo com a gente e falou sobre a história e os planos do bloco – que vão muito além da música:

– A gente não é um bloco feminino, aceitamos homens na nossa banda. Então a gente é um bloco feminista mesmo, de combate ao racismo, à homofobia, à lesbofobia e à transfobia, e a gente leva sempre essa bandeira pra rua. Falamos que cada um traz um pouco do seu feminismo e o nosso feminismo trabalha em cima da ideia de transformar a sociedade e da liberdade.

E foi justamente para defender a liberdade feminina que a ideia do bloco surgiu, no final de 2014. Em resposta a uma postagem preconceituosa de um rapaz que dizia “Não mereço mulher rodada”, Débora e a amiga Renata Rodrigues, jornalista, criaram um evento fake no Facebook convocando mulheres para saírem com suas saias rodadas, rodopiando juntas, no carnaval seguinte. Ela conta que, em 24 horas, o evento já tinha mais de mil pessoas confirmadas, então elas viram que, literalmente, iam mesmo ter que botar bloco na rua:

– A partir daí, fomos atrás de músicos para fazerem o som. Foi assim que surgiu, em 2015, o bloco Mulheres Rodadas. Foi nosso primeiro carnaval, desfilando na Quarta-feira de Cinzas.

O bloco Mulheres Rodadas sai na manhã da Quarta-Feira de Cinzas, no Largo do Machado. Foto: Marcelo Valle
O bloco Mulheres Rodadas sai na manhã da Quarta-Feira de Cinzas, no Largo do Machado. Foto: Marcelo Valle

Carnaval sem assédio

Desde o início, a bandeira feminista fez parte do bloco, que conta com o apoio institucional da ONG Mulheres, e sempre se engaja em campanhas, como “O valente não é violento, de combate à violência contra a mulher, e “Carnaval sem assédio”. Débora conta que, nesses dois anos do Mulheres Rodadas, tem percebido bastante diferença no comportamento, principalmente das mulheres, durante o carnaval:

– O que a gente vê é menos uma diferença no machismo, embora tenha um constrangimento maior da parte dos homens, mas uma diferença muito forte nas mulheres. A gente vê que elas estão muito mais conscientes do seu papel e dos seus direitos sobre seus corpos Existe um maior entendimento de que se um homem encostar nela, ou forçar um beijo, é uma violência. Isso não é uma cantada, isso é violento. Isso não é uma paquera, isso é assédio. Então a gente acha que teve uma mudança muito grande que se refletiu, inclusive, a meu ver, nesses números crescentes que a gente está vendo de denúncias, como no carnaval deste ano. A gente acha que está muito relacionado às mulheres estarem mais conscientes e terem mais domínio sobre si mesmas.

Oficinas feministas

No Rio, já virou tradição entre os blocos a realização de oficinas de percussão – uma forma de integrar pessoas e formar uma banda afiada para o carnaval. No Mulheres Rodadas, as oficinas vão muito além da música. Dentro do espírito do bloco, uma vez por mês, além do batuque, o ensaio ganha também uma roda de conversas, onde se discutem temas como história do feminismo, feminismo negro e feminismo radical, por exemplo.

Com isso, o bloco acabou atraindo pessoas – não apenas mulheres – interessadas não só em aprender sobre música, mas também em saber mais sobre o feminismo:

– A oficina começou em 2016, como uma coisa de aprendizado conjunto, mas foi muito interessante porque acabou acontecendo uma leitura que eu e Renata já tínhamos um pouco, que era de que quem ia se aproximar eram mulheres que não tocavam, mas que eram mais ligadas ao feminismo. Então elas estavam na busca do feminismo e da música, mais do que pessoas que já tocam ou que têm um interesse especial na música, mas que tinham interesse na causa. Acaba sendo um momento bem mais do que só uma oficina de música, o que já é coisa pra caramba, né?. Havia várias mulheres que não sabiam tocar, aprenderam ao longo do ano e foram pro desfile. Foi muito bonito.

Com o sucesso da primeira edição, as oficinas das Mulheres Rodadas voltam a acontecer a partir de abril ou maio de 2017. São três encontros por mês e, em um deles, acontece também a roda de conversa, que é aberta a qualquer pessoa interessada nos temas.

Quando não é carnaval, além das oficinas, as Mulheres Rodadas também dão palestras, promovem conversas em escolas e fazem shows. Ano passado, por exemplo, elas se apresentaram de graça na Vila Mimosa e no Largo de São Francisco. A lógica do bloco é estar sempre ocupando a cidade.

– A gente passa o ano inteiro fazendo atividades. Nosso objetivo é ampliar o movimento, tanto com essa pegada da cultura e da música, como munindo quem está interessado no assunto de informação. É tentar ajudar, porque a gente acredita muito nessa mudança. Então, em 2017, vai ter a oficina, a gente vai continuar fazendo as rodas de conversas, e vão ter palestras em escolas. E é nesse ritmo que vamos.

Para informações sobre shows, palestras e oficinas do Mulheres Rodadas, basta entrar em contato por meio da página do bloco no Facebook. No carnaval, o bloco se concentra no Largo do Machado, por volta das 9h da Quarta-feira de Cinzas, e sai em cortejo pelo bairro do Flamengo.

Comments

comments

Escrito por
More from Erika Azevedo

RIO: Shin Miura Express – menu japonês de primeira pra almoçar no Centro

Quer ter um gostinho de um dos melhores restaurante japoneses do Rio...
Leia Mais