Mulheres Brasileiras pelo Mundo

greve de mulheres russas
Em 8 de março de 2017, a greve das operárias russas deflagrou a Revolução Russa.

 

Há mais de cem anos que as mulheres lutam por direitos civis, melhores condições de trabalho e salário, participação na sociedade, respeito às suas vidas, poder de decisão sobre seus corpos e tantas outras questões. Tivemos algumas conquistas, mas não de forma uniforme no mundo. No Brasil, ainda temos números alarmantes de violência contra a mulher (assédio, feminicídio, agressão doméstica, abuso sexual, a lista é longa) em uma cultura reconhecidamente machista. Já na Alemanha, a parte social é mais igualitária, mas a econômica, não: as mulheres são as mais afetadas pela pobreza, e, entre as que trabalham, a maioria recebe apenas o mínimo, sendo que uma boa parte trabalha apenas meio-período, e as outras, em áreas mal-pagas ou trabalho não-remunerado, como as donas-de-casa. E como é no resto do mundo?

Pensando nisso, perguntamos a várias brasileiras como é ser mulher fora do Brasil. São mulheres de vivências, idades e origens diversas, mas todas Almost Locals de coração.

(entrevistas editadas por motivo de espaço e clareza)

Ásia

Lisa Ribeiro, solteira, mora em Cingapura

Eu vivo em Cingapura há quase 4 anos. Antes disso, vivi em Tóquio por 4 anos, fazendo mestrado e depois trabalhando em uma empresa tipicamente japonesa. No Japão, a mulher tem que ter uma certa postura: frágil, ultra-feminina, extremamente educada. É bem visível que existem papéis para o homem e para a mulher. Mas as coisas nunca são como elas aparentam no Japão: as mulheres são super bem preparadas, e elas é quem mandam (apesar de muita gente achar o contrário).

A minha personalidade destemida, porém, não me ajudou muito quando trabalhei na empresa japonesa: como sou engenheira, queria trabalhos mais significativos e, como já tinha bastante experiência e entrei como nível júnior, achei que poderia contribuir pouco. E o fato de ser mulher e estrangeira não ajudava. Em Cingapura, porém, trabalho numa pequena empresa com 4 outros homens. Meus 2 chefes são bem pragmáticos, cresci e continuo crescendo independente do meu gênero.

Em Cingapura, eu acho as mulheres bem poderosas e empoderadas no ambiente de trabalho, eles são bem pragmáticos aqui, um ponto fora da curva da realidade asiática. Aqui, sinto que tenho oportunidades de crescimento e sou muito respeitada. Nunca passei por uma situação de opressão relacionada ao gênero, e vejo que as mulheres tem muita chance de crescer profissionalmente aqui. Como aqui a maioria das mulheres trabalha e não depende do marido, o ambiente como um todo é mais competitivo e independente para ambos os gêneros. E acabo surfando na mesma onda.

Américas

C. Oliveira, casada, com filhos, mora em Punta del Este, Uruguai

Como trabalho em casa, não posso falar sobre mercado de trabalho. Mas, por exemplo, na escola internacional onde meu filho estudou até ano passado, os coletes novos de esportes (para colocar sobre as camisetas) foram destinados para uso dos meninos no rugby, ficando os velhos, suados e sujos, para as meninas usarem ao jogar hóquei na grama. Elas não gostaram nada, nada. Sinto que a sociedade uruguaia é ainda bastante machista. A violência doméstica contra a mulher é muito grande. Existem muitos casos, ouve-se falar de funcionária que não foi trabalhar porque apanhou do marido, lê-se nos jornais, é uma realidade parecida com a brasileira, mas com índices menores.

Eu vejo mulheres amamentando em público, mas não precisam se expor, nem precisam se cobrir. Fazem de maneira natural, discretas na medida.
Muitas mulheres são as chefes do lar, assim como no Brasil. Muitas mulheres trabalham fora, em cargos e atividades em geral, em proporção igual a dos homens, como policiais, segurança em banco, professoras, médicas, até porque é um país com população pequena, então tem mulher em todas as áreas.

Regina Camargo, 54 anos, paulistana, em um relacionamento estável, 2 filhos, mora em Berkeley, EUA

Moro nos EUA há 31 anos, mais da metade da minha vida. Berkeley é considerada a cidade mais progressista dos EUA, portanto as minhas impressões refletem essa perspectiva.  A primeira coisa que notei quando cheguei aqui, ainda bem jovem, foi poder andar pelas ruas sem ter que lidar com assédio sexual constante. Foi uma experiência libertadora.  O assédio também acontece por aqui, mas na minha experiência, não é tão comum quanto no Brasil.Mas o fato de eu não ter passado por situações de violência doméstica aqui ou de violência em geral não significa que isso não aconteça por aqui.

Eu sou uma mulher imigrante, Latina (termo que só faz sentido no contexto estadounidense de relações raciais), miscigenada, brasileira. I am a woman of color.  Mulheres brancas não tem que lidar com o racismo institucionalizado ou com sentimentos anti-imigração.  Mulheres como eu tem que lidar também com racismo, xenofobia, e discriminação no mercado de trabalho além de discriminação baseada em gênero. Mulheres ainda ganham menos que os homens nos EUA, mas mulheres brancas ganham mais que mulheres negras ou Latinas. Uma das vantagens de morar nos EUA é que o aborto é garantido por lei, embora os republicanos estejam sempre tentando mudar essa realidade. Outra vantagem é poder processar alguém por assédio sexual, mas mesmo assim não é fácil porque aqui também existe o duplo padrão.

Se compararmos os EUA com outros países, especialmente do norte europeu, ainda temos uma longa jornada pela frente.  A licença maternidade remunerada ainda não é garantida por lei. O número de mulheres ocupando posições de poder em empresas, no senado e no congresso ainda é muito baixo.  Mulheres ainda ganham menos que os homens fazendo o mesmo tipo de trabalho. Há estudos que comprovam que, em famílias onde o homem e a mulher trabalham período integral, ainda é a mulher que passa mais horas cuidando dos afezeres domésticos e da família. Ainda por cima, o atual governo de direita está sempre tentando retroceder o país.

Europa

Bebete Indarte, 56 anos, divorciada, 2 filhos, mora em Leiden, Holanda

Aqui sou tratada como pessoa e não como mulher. Por outro lado, isso implica uma certa falta de gentileza, mas você se acostuma com isso. Há um respeito grande, no entanto. Os homens na Holanda, não sendo machistas, fazem as lidas domésticas igualmente, lavam louça, cuidam da casa, compras, cozinham, dividem a conta nos restaurantes, tudo de igual pra igual. Ninguém te assedia.

Pelo que leio por ai, ainda falta melhorar a situação familiar – no caso de um casal ter filhos, normalmente a mulher começa a trabalhar meio-período no nascimento de uma criança, porque o salário (na maioria dos casos) dos homens é mais alto, e ela se dedica a cuidar dos filhos e trabalha menos. Quando a mulher fica sozinha criando/educando os filhos (como é o meu caso), ela se afasta do mercado de trabalho e é assistida pelo governo, mas, se mais tarde (quando os filhos crescerem) quiser voltar ao mercado de trabalho, pode haver complicação com um buraco enorme no CV.

Tahiba Melina, 33 anos, produtora cultural e cozinheira, em um relacionamento estável, mora em Amsterdã, Holanda

No tocante à segurança física, aqui é muito seguro para a mulher, comparado ao Brasil, que é um dos líderes mundiais em feminicídios. Aqui, as taxas de assassinatos são quase nulas, e somado a isso, as autoridades holandesas são muito empenhadas em combater quaisquer atos de violência doméstica e especificamente contra mulheres.

Apesar da Holanda ser mundialmente conhecida por características sociais ligadas à qualidade de vida e igualdade entre gêneros, desde que vim morar aqui, algumas coisas me chamaram atenção negativamente, apontando que, mesmo em uma sociedade aparentemente igualitária, ainda existem conquistas a serem alcançadas para equilibrar a balança entre os gêneros.

Tudo por aqui se mostra muito organizado, inclusive as ações e opções de vida, que, dependendo do gênero, devem ser tomadas. Existe uma ideia muito difundida de que a mulher holandesa deve ser descolada, pouco vaidosa e prática. Ela deve trabalhar duro quando jovem e ter filhos com mais idade para poder “aproveitar a vida”.

À primeira vista, pode parecer uma perspectiva libertária, mas quando aprofundamos a informação, descobrimos que, na prática, a remuneração média da mulher na Holanda é bem menor do que a masculina. Além disso, as mulheres trabalham menos horas por semana (a maioria diz que é por escolha, para se dedicar à família, poder passar mais tempo com os filhos) e assim, acabam ocupando também menos espaços de liderança. Elas também tem em média uma escolaridade menor do que os homens.

Outra coisa que me chamou atenção é a quantidade de sexismo em anúncios publicitários no país, ainda há um grande espaço para a objetificação da mulher. Mas essas questões estão em pauta em discussões de grupos feministas e instituições governamentais, e observo que é vantajoso que haja espaço para a discussão sobre essas questões.

Silvia Mizukoshi, 36 anos, mora em Paris, França

Eu me sinto muito bem aqui em Paris, onde vivo há 10 anos. Não tenho problemas ou vejo discriminações no meu ambiente de trabalho, talvez por existir mais mulher que homem (aviação comercial). Minha chefe e a chefe dos comissários são mulheres. Temos muitas comandantes mulheres e, sinceramente, são as mais respeitadas, tanto na hierarquia dos pilotos como dos comissários. Meu salário é o mesmo que dos homens na minha empresa que exercem a mesma coisa que eu.

Na rua, me sinto muito mais à vontade que no Brasil. Às vezes tem os doidos, mas não é sempre…no Brasil eram mais frequentes as cantadas e palavras grosseiras. Moro sozinha, e vou e volto de qualquer lugar sem encanação.

Aqui, as mulheres que são mães contam com direitos trabalhistas e folgas. Acho que algumas culturas menosprezam um pouco a mulher, mas os franceses acreditam muito na igualdade de gêneros.

GSF, casada, mora em Portugal

Eu me sinto definitivamente mais segura aqui em Portugal, especialmente entre Lisboa e Cascais, que é por onde eu mais circulo. Mas ainda hoje eu fico esperando ser encarada, assediada, encoxada, assaltada… E quando não acontece, é um alívio tão grande, mas ainda com o preço alto do estresse e da ansiedade que essa expectativa causa. Foi só depois de me mudar pra cá que eu percebi como eu andava pelas ruas de SP como se fosse um trator. Com óculos escuros, fone de ouvido, passo firme e cara feia, tudo pra evitar qualquer “convite” a contato não desejado. Não que essa atitude tenha me livrado de situações desagradáveis em SP, claro.

Não acho que Portugal seja um paraíso. É só mesmo porque eu ainda pouco senti a real deles. Ainda estou me livrando dos preconceitos que tinha sobre o país e os nativos.  Que eu descobri serem muitos, pro meu azar.

Talvez muito da minha vivência agora tenha a ver com o fato de eu ser mais velha, de ser casada, de pouco sair etc. Fico curiosa pra saber como é para quem está numa situação oposta a minha.

Thais O. P. S, casada, 1 filha, mora em Santa Maria Capua Vetere, Itália

Talvez por ter chegado há pouco tempo e não estar trabalhando fora, com pouca vida social fora da família do meu marido, me sinto socialmente “pressionada” a ser uma boa dona de casa. Por várias vezes, em conversas informais e cotidianas, me senti questionada sobre quais pratos sei cozinhar ou qual a minha rotina na limpeza da casa, como se das minhas respostas dependesse a “aceitação” nesse grupo familiar.

Fica muito claro que nada é feito de forma proposital ou mal intencionada, mas está profundamente ligado à cultura de que essas são obrigações da boa esposa e normalmente aceitas como tal, tanto pelos homens como pelas mulheres. Sinto que existe um status desejado em ser considerada boa cozinheira ou boa dona de casa.

Existem claras dificuldades no mercado de trabalho, com a preferência declarada por candidatos do sexo masculino para algumas oportunidades.Também poderia citar situações com menor consequência, como ter seus comentários rigorosamente ignorados em uma partida de futebol, até que você percebe que, na hora do jogo, a regra é: mulheres fora da sala ou de boca fechada. Tudo de forma muito tranquila e não intencional, mas é assim que funciona.

Existe também o imaginário coletivo em relação a mulher brasileira, que me incomoda bastante e com o qual ainda não aprendi a lidar muito bem.

Positivamente, posso ressaltar o absoluto respeito pela figura materna. Mas não consigo imaginar essa comunidade com igualdade de gêneros, pelo simples motivo de que deve haver a vontade para que isso aconteça e, não sinto que alguém esteja incomodado com a forma como se vive por aqui. Não me parece um assunto em pauta.

Helena Rezende, designer, casada, mora em Madri, Espanha

Aqui, além  da segurança grande, os homens respeitam  as mulheres. Muito mais que no Brasil. E olha que, no verão, as espanholas não economizam no decote e mandam ver no comprimento curtissimo dos shorts e saias. São mais ousadas que as brasileiras. E mesmo assim os homens , em geral não falam nada. Podem até olhar discretamente. Mas falar algo é muito raro.

Não vi nenhuma dificuldade em especial por ser mulher na Espanha. Tampouco vantagens ( aliás tô pra conhecer algum lugar onde eu realmente sinta  uma vantagem em ser mulher) . A violência contra as mulheres existe sim, mas é algo que os espanhois discutem muito. Divulgam , fazem campanhas e etc.

Mas reparei em algo diferente para nós: o normal na Espanha é a mulher tomar a iniciativa numa paquera. O homem faz isso raríssimas vezes. Quando perguntei para um espanhol o que ele achava disso, e ele disse que achava ótimo. Se ela está a fim de alguém , vai lá e pronto. Por outro lado, escuto de caras sul-americanos aquí que acham as espanholas muito “frias” ou individualistas. Um amigo mexicano disse que, quando vai pra cama pela primeira vez com uma espanhola, no outro dia ele quer tomar o café da manhã junto, conversar um pouco, e, nas palavras dele: “pela manhã as espanholas pegam a bolsa e saem correndo embora”. Ele chegou ao ponto de dizer que de vez em quando se sentía “meio usado”. Eu morri de rir , porque esse é um ponto de vista que já escutei somente de mulheres.

O que precisamos melhorar ainda em termos de igualdade é o salàrio. A diferença salarial por conta do sexo ainda existe.

Oceania

Martina M, solteira, 1 filho, mora em Bilgola, NSW, Austrália

Acho que talvez ainda haja diferença de salários aqui. Mas eu não sinto isso, pois nos meus trabalhos, mulheres e homens ganham a mesma coisa.

Sou mãe solteira, não tenho nenhuma ajuda do pai do meu filho, mas ganho bolsa família, que não é muito, mas ajuda. Tenho 3 empregos. Trabalho em uma boutique 4 dias por semana, em um restaurante italiano como garçonete todos os domingos e em um restaurante mexicano 2 noites por semana, ou seja, trabalho 5 dias e meio. Não tenho carteira assinada, pois trabalho como Casual Staff. Aqui, se você trabalha em tempo integral, tem benefícios como férias anuais, licença médica, mas ganha menos por hora, pois tem férias pagas. Estou falando do mesmo nível de empregos que tenho, empregos em que não se precisa de nenhuma qualificação especial. Agora, quando você opta por ser casual, o meu caso, você ganha mais por hora, mas não tem nenhuma dessas vantagens e também pode ser mandada embora a qualquer momento sem aviso prévio.

Mas não dá pra perceber essa diferenças de gêneros na minha vida profissional. Na verdade, sendo mulher e tendo quase 50 anos, eu sinto dificuldade de arrumar namorado, pode botar isso ai, mas acho que isso é meio que universal, né?

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