Por dentro de um mercado de vinhos em Lisboa

André Ribeirinho, organizador do Adegga Wine Market. Foto: Divulgação
André Ribeirinho, organizador do Adegga Wine Market. Foto: Divulgação

Uma coisa que eu percebi quando vim morar em Lisboa é como tem mercado de vinhos nessa cidade. De inverno, de verão, internacional, regional, de pequenos e grandes produtores… Não importa: há sempre uma boa desculpa para passar algumas horas provando vinhos e comprando diretamente de quem os faz.

Um dos maiores é o Adegga Wine Market – que atravessou fronteiras pela Europa e além-mar, tendo edições anuais no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nós o visitamos recentemente. E é no embalo do Adegga que contamos como é um mercado de vinhos em Lisboa.

Há muita conversa e pouca frescura

Era um sábado de verão, daqueles que o lisboeta não costuma dispensar para passar o dia na praia, e nós partimos para o salão nobre do Hotel Marriott. Chegamos pouco mais de uma hora depois da abertura da sala e o espaço já estava lotado. Diferentemente do que se pode supor sobre um mercado de vinhos, o clima é descontraído: há gente de bermuda e camiseta, muita conversa e nenhuma frescura.

A questão essencial aqui é que o vinho é uma bebida do dia-a-dia do português, não algo reservado apenas para uma ocasião especial. Os produtores de vinhos estão ali mesmo para trocar ideia com o público e quanto mais interessado você for no assunto – seja um quase-sommelier ou apenas um curioso – mais o papo vai render.

O agito do mercado de vinhos no Marriott. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
O agito do mercado de vinhos no Marriott. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

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Não é preciso ser um entendido no assunto

É nessas conversas quase privadas que se podem ter verdadeiras aulas sobre vinhos. E, na sequência, experimentar na degustação um pouco do que se acabou de aprender. Num bate-papo rápido a gente fica sabendo, por exemplo, que o Douro foi a primeira região demarcada de vinhos no mundo, regulamentada em 1756 pelo Marquês de Pombal.

Ou, ainda que as quintas do Douro Superior tendem a ser mais valorizadas comercialmente porque têm maior exposição ao sol – o que é ótimo para as uvas. Mas se você quiser focar mesmo só no vinho em si, descobre que a Quinta Nova, embora produza 400 mil garrafas por ano, permite-se fazer projetos mais exclusivos, como o Mirabilis. O rótulo Grande Reserva Branco 2015 foi o primeiro branco português a figurar na lista de melhores vinhos do mundo.

Sede da Quinta Nova, no Douro. Foto: Divulgação
Sede da Quinta Nova, no Douro. Foto: Divulgação

A paixão dos produtores é contagiante

Uma coisa é comum a todos os produtores de vinho: orgulho naquilo que fazem. Portanto, se você estiver de ouvidos abertos, vai ouvir todo o tipo de relato apaixonado. Tem as histórias de quintas que pertencem há séculos à mesma família – caso da Torre do Frade, no Alentejo, que desde 1839 vem passando de geração em geração. Ou da supermoderna Adega Mayor, com projeto arquitetônico de Siza Vieira, e que pertence a uma família que domina como poucos o negócio do vinho e do café.

Também pode esbarrar com uma vinícola como a Quinta de Lemos, do Dão, e descobrir como é que se faz um vinho tão especial. Entre a lista de cuidados da quinta com sua produção estão colheitas noturnas, quando as temperaturas são muito altas, e uma seleção de uvas tão rigorosa que só 10% do que é colhido na vindima segue para vinificação. “Começamos a contrariar a ideia de que existem ‘anos bons’ e ‘anos maus’ para o vinho”, conta Eduardo Figueiral, diretor comercial da quinta.

Os rótulos da Quinta de Lemos. Foto: Divulgação
Os rótulos da Quinta de Lemos. Foto: Divulgação

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A prova de vinhos é liberada

Tendo em conta que um mercado de vinhos tem como objetivo vender vinho, os visitantes podem provar quanto vinho quiserem (ou aguentarem). Normalmente paga-se uma entrada, que pode incluir ou não o copo de prova, e pronto. Claro, tudo é servido em doses bem pequenas, porque afinal a ideia é provar – e não se embriagar. Porém, inevitavelmente você vai sair dali meio altinho. E muito provavelmente vai esquecer os vinhos que provou.

A minha dica, para evitar esse segundo problema, é ir anotando (ou fotografando) os rótulos de que mais gostou, para fazer a compra antes de sair do evento. Mas o Adegga tem uma solução perfeita: um copo inteligente, com um chip que registra todas as suas provas. No dia seguinte ao mercado você recebe no seu email a lista de vinhos provados e pode fazer sua compra online mesmo.

O enólogo Diogo Lopes em prova dos vinhos Magma. Foto: Divulgação
O enólogo Diogo Lopes em prova dos vinhos Magma. Foto: Divulgação

Há vinhos especiais para descobrir

Ainda que alguns mercados de vinhos reúnam grandes e famosos produtores, como é o caso do Adegga, sempre há algo diferente a descobrir. Seja um novo rótulo que está sendo lançado no mercado ou uma linha especial que não se encontra em qualquer garrafeira por aí. Também é comum encontrar nos mercados de vinho o que os produtores chamam de ‘novos projetos’, que são algumas experiências que os enólogos fazem.

Foi assim que descobrimos o Magma, um projeto em Biscoitos, na Ilha Terceira, nos Açores. A produção dos enólogos Diogo Lopes e Anselmo Mendes é ousada, já que estão produzindo vinho numa região atípica. “É preciso ter uma dose de aventura, porque o risco de perda é muito grande”, explicou Diogo. O resultado é uma modesta produção anual de 2.500 garrafas e um vinho com toque salino, marcado pela mineralidade e pelo frescor do Oceano Atlântico.

A sede da Adega Mayor, em Campo Maior. Foto: Gonçalo Villaverde / Divulgação

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Vinho nos botecos brasileiros: um sonho

O produtor português quer vender para o Brasil. Portugal já conseguiu passar a Argentina e hoje só perde para o Chile no consumo de vinho em terras brasileiras. Mas o que o brasileiro bebe em um ano, o português bebe em duas semanas. Apesar disso, o consumo só cresce e André Ribeirinho, organizador do Adegga, acredita que é questão de tempo para o vinho estar disponível no boteco ou no bar da praia e ser mais presente na rotina do brasileiro. “Isso naturalmente vai acontecer”, defende.

Para descobrir quando tem um bom mercado de vinhos em Lisboa, boas fontes de informação são a programação do Adegga e da Revista de Vinhos. O Campo Pequeno também tem mercados anuais com pequenos produtores. Outro evento esperado na cidade é o Vinho ao Vivo, que reúne produtores de toda a Europa. Além disso, Lisboa recebe anualmente o Festival do Alvarinho e outros eventos pontuais relacionados a vinhos do Alentejo e vinhos do Dão. Vale acompanhar ainda a agenda da revista Paixão pelo Vinho, que organiza eventos também fora da capital portuguesa.

Quer saber mais sobre o que visitar em Lisboa? Entre em contato e saiba como ter um guia de Lisboapersonalizado, com o Almost Locals Experience.

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