Por dentro de uma fábrica de chá nos Açores: uma visita à Gorreana

As boas-vindas da Gorreana aos visitantes. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
As boas-vindas da Gorreana aos visitantes. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Uma coisa que eu aprendi vivendo em Portugal é o quanto se valoriza a comida aqui. E mais, o quanto se dá importância à produção local. No caso dos Açores, a carne bovina, o leite, a manteiga, o queijo e o ananás são alguns dos produtos cuja denominação de origem faz toda a diferença. O mesmo se passa com o chá. Ficam na Ilha de São Miguel as únicas plantações de chá da Europa, herança viva da época da expansão marítima portuguesa. Nós estivemos na Gorreana, uma tradicional e familiar fábrica de chá nos Açores, que abre as portas para visitas. Aqui você descobre porque é uma boa ideia incluí-la no seu roteiro de viagem açoriano.

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Na entrada da Gorreana. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Na entrada da Gorreana. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Uma fábrica de chá nos Açores

A fábrica de chá Gorreana fica ao norte da Ilha de São Miguel, a pouco mais de 30km de Ponta Delgada e não muito distante da Ribeira Grande. Para chegar lá você vai precisar cruzar boa parte da ilha, mas pode ter uma experiência divertida no caminho. Entre os caminhos verdes de São Miguel, com sorte, você pode testemunhar cenas típicas do dia-a-dia dos micaelenses, como o deslocamento de rebanhos. Nós pegamos uns cinco cruzando estradas, o que sempre resultava num mini-engarrafamento engraçado.

Ao nos aproximarmos da Gorreana, o edifício branco onde ficam as instalações da fábrica se destaca em meio ao verde e o azul predominantes na paisagem. Quando o carro embica na entrada, um belo painel vintage não deixa dúvidas de que chegamos ao lugar certo. Já dali, a visão dos arbustos de chá contrastando com o céu e o mar faz o passeio valer a pena.

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A linda paisagem das plantações de chá. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
A linda paisagem das plantações de chá. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Chá açoriano: do apogeu ao declínio

Deixamos o carro no pátio da Gorreana e entramos na fábrica. Somos recebidos por Madalena Mota, que pertence à sexta geração da família que construiu a Gorreana e que conta a história da fábrica e do ciclo do chá açoriano de uma forma emocionante. Com uma economia fortemente ligada à produção rural, os Açores já tiveram, no século XIX, 62 produtores de chá e 16 fábricas.

A aposta no chá veio depois de uma forte praga que praticamente dizimou as plantações de laranja que fomentavam a economia local. Foi nessa época, que os produtores locais começaram a se dedicar a outras culturas, como ananás e tabaco – que ainda são fortes por lá – e ainda o chá. A abertura das fábricas e seu maquinário moderno para a época, imediatamente transformou aqueles espaços em locais de admiração dos ilhéus. Madalena conta que alguns iam até a fábrica apenas para ver o acender das luzes, o que era uma novidade para a época.

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Edifício-sede da Gorreana. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Edifício-sede da Gorreana. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Maquinário original da fábrica de chá. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Maquinário original da fábrica de chá. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Um lugar com 135 anos de história

O declínio econômico levou a que apenas 2 se sustentassem até hoje: a Gorreana e a Porto Formoso, não muito distante dali. Mas o chá sempre fez parte da cultura açoriana. Era usado pelos agricultores para repor as energias na lavoura e, misturado ao leite, também para fazer render essa bebida mais cara. Ao fim do dia, era à volta do chá o momento de relaxamento após o trabalho. “O chá sempre foi uma bebida transversal a todos os extratos sociais. O cliente dos Açores foi o que nos manteve vivos”, afirma Madalena ela, que hoje comanda ao lado da irmã uma fábrica com 135 anos de história.

Na cafeteria da Gorreana, Madalena nos dá uma verdadeira aula sobre chá: explica que levam 6 anos desde a plantação até a primeira colheita e que a planta vive até 90 anos. Segundo ela, o solo ácido e a chuva frequente fazem com que o chá açoriano desenvolva raízes profundas, que favorecem a produção de três tipos de chá preto e dois tipos de chá verde.

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Cenário da trilha de 30 minutos pela plantação. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Cenário da trilha de 30 minutos pela plantação. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Riacho no percurso pedestre. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Riacho no percurso pedestre. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Colheita de chá na primavera

As plantações de chá se mantêm verdinhas ao longo de todo o ano, o que garante ao visitante uma paisagem sempre bonita para apreciar. Mas a colheita é feita a partir de março, às vezes se estendendo até outubro. Depois de colhidas, as folhas ficam até 10 horas nos secadores antes de ser iniciado o processo de enrolamento que vai resultar no produto final.

Na visita à Gorreana, pode-se passar por todas as salas da fábrica de chá, que em sua maioria têm maquinário original do século XIX. Um filme (já velhinho) exibido em looping explica todas as etapas do processo produtivo, mas os visitantes podem solicitar uma visita guiada na cafeteria. Cabe mencionar que, sem contato prévio com a fábrica, pode ser que não haja ninguém disponível para a visita, devido ao volume e horário de trabalho dos funcionários.

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A loja da Gorreana vende chás e outros produtos açorianos. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
A loja da Gorreana vende chás e outros produtos açorianos. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Alemanha e França entre os principais clientes

A Gorreana tem 35 hectares de plantação de chá, que podem ser visitados em parte através de dois percursos pedestres, de 30 minutos e 1 hora e meia de duração. A ideia de abrir a fábrica para visitas foi do bisavô de Madalena, ao perceber que, quando abria o espaço ao público, fazia vendas de chá. Uma cafeteria simples tem chás para serem provados gratuitamente pelos visitantes e uma loja vende todos os produtos Gorreana e mais alguns outros açorianos.

Atualmente, a Gorreana exporta grandes quantidades de chá preto do tipo orange pekoe para a Alemanha e tem na França o principal público do seu chá verde – mais suave que o oriental, devido às condições de plantação em São Miguel. Curiosamente, a Inglaterra é um mercado recente para a Gorreana, que produz chás premium. “Eles estão mais acostumados a chás baratos”, justifica Madalena.

A paisagem logo à chegada na fábrica. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
A paisagem logo à chegada na fábrica. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

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A série de posts “Açores para Brasileiros” foi idealizada pelos blogs Cultuga e Almost Locals. Essa visita à Ilha de São Miguel, nos Açores, contou com o apoio do Visit Azores, que organizou nosso roteiro; do Hotel VIP Executive Azores (Ponta Delgada), onde ficamos hospedados; da Autatlantis, que nos cedeu o carro durante nossa estadia na ilha, e da SATA – Azores Airlines, que nos ofereceu os voos de Lisboa a Ponta Delgada e de Ponta Delgada a Lisboa. Todas as opiniões neste post são da autora. 

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