Estudar em Portugal: mitos e verdades

Meu nome é Marcelo Caldas, tenho 37 anos e sou professor de Redação e Língua Portuguesa. Durante praticamente metade da minha existência na Terra, estive envolvido com a sala de aula, trabalhando em alguns dos principais cursos pré-vestibulares e escolas do Rio de Janeiro. Logo depois de ter alcançado o que seria o auge da minha carreira na área, resolvi que era hora de mudar. Foi assim que, conversando com um amigo que já tinha feito o mesmo movimento dois anos antes, tomei a decisão de estudar em Portugal. Mais especificamente, fazer um mestrado em Lisboa.

Para fazer minha escolha, levei em conta, em um primeiro momento, a língua do país de destino – tanto na facilidade do uso cotidiano quanto no tipo de emprego que eu poderia, quem sabe, conseguir. Porém, o que me motivou de fato a estudar em Portugal foi a junção de uma cidade adorável com uma formação acadêmica de qualidade. Claro que abrir mão de emprego, reputação, salário e estabilidade para retornar a uma vida de estudante não foi fácil. No entanto, a necessidade de escrever uma nova página na minha história falou mais alto e, 7 meses depois, aqui estou eu. Felizmente, sem precisar viver à base de miojo com salsicha e podendo tomar ótimos vinhos a preços ridiculamente baixos.

Neste post, tento falar um pouco de como foi e de como tem sido todo esse processo de estudar em Portugal, de modo a ajudar os leitores do Almost Locals a vencerem o medo e embarcarem nessa experiência. Não, não é uma decisão simples. Mas acredite: os ganhos são enormes.

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Quero estudar em Portugal! Como faço?

Para começar, é preciso reunir toda a documentação acadêmica básica: diploma, histórico universitário, currículo atualizado. Dependendo do curso escolhido, pode ser exigida alguma comprovação de experiência (por exemplo: o mestrado em Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa, minha primeira escolha, pede que se comprove aptidões musicais por meio de documentos), o que pode servir para efeito de desempate ou mesmo de exclusão do candidato. Além disso, é comum que se peça uma carta de intenções, na qual o estudante explique suas motivações para ingressar naquele curso e, principalmente, naquela instituição.

Já pensou você na Universidade Nova de Lisboa? Foto: Flickr Jaime Silva

Por último, há locais que solicitam um pré-projeto, sendo raro no caso do mestrado e comum no caso do doutorado (aqui chamado de doutoramento). Essas informações estão disponíveis no site das instituições, e é importante lê-las com todo o cuidado. Importante: o ano letivo europeu começa em setembro. Assim, o processo seletivo de mestrado e doutorado costuma ocorrer entre os meses de junho e julho e é feito totalmente online. Algumas poucas universidades exigem a matrícula presencial, a qual ocorre um mês antes do início das aulas. É preciso estar programado para isso, pois pode ser o caso de antecipar a viagem.

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Aprovado! E agora?

A primeira providência é, claro, procurar um lugar para morar. Há universidades que oferecem alojamento, mas o processo não é simples. Por isso, a maior parte dos estudantes opta por procurar quartos em apartamentos compartilhados.  É possível encontrar diversos anúncios em grupos do Facebook (um exemplo é o “Arrendamento Quartos e Casa em Lisboa”). Em Lisboa, o preço médio do aluguel varia entre 200 e 350 euros (contas incluídas) para um quarto individual, com as demais áreas (banheiro, cozinha) comuns, nos bairros mais próximos às instituições de ensino.

Sua próxima casa pode estar em Lisboa. Foto: Flickr Diego Sevilla Ruiz

Normalmente, não há burocracias; basta conversar com o senhorio e pagar por mês o devido valor, e avisar com um mês de antecedência quando pretender deixar o imóvel. Caso a ideia seja alugar um apartamento inteiro, a situação torna-se mais complexa. Um pequeno T0 (equivalente a um estúdio) custa na faixa de 400 a 500 euros (contas incluídas), e as exigências para alugar são maiores: comprovação de renda, fiador português, o valor de um mês de caução (devolvido ao final do contrato ou descontado do último mês) e mais um mês dos primeiros trinta dias de aluguel. Além disso, o contrato padrão é de um ano, renovável por mais um – o que não é exatamente um problema se a ideia é fazer um mestrado ou doutorado, já que estamos a falar de 2 a 4 anos estudando.

Já estou alojado. Posso começar a viver em Portugal?

Calma. É preciso, primeiro, regularizar-se. Em Portugal, o documento mais importante é o NIF (número de identificação fiscal; o equivalente ao CPF no Brasil). Sem ele, não se consegue fazer algo simples como abrir uma conta no banco ou ter um plano de celular pós-pago. Para resolver essa situação, tem-se que ir às Finanças acompanhado de um residente no país, pois será necessário um endereço para fins de contato futuro. Atenção: mesmo os brasileiros com dupla nacionalidade tirada no Brasil precisam fazer esse processo, pois o NIF não é atribuído fora do território português. A boa notícia é que o número é atribuído na hora, entregue em um papel timbrado oficial.

Aliás, abrir uma conta no banco é boa opção para quem é universitário. Primeiro porque sacar dinheiro em euros da conta do Brasil não é vantajoso (IOF + taxas + câmbio ruim). Segundo porque não há cobrança de tarifas mensais. Ganha-se um cartão de débito (mas não de crédito) e o estudante ainda tem direito a fazer, se quiser, um seguro médico que custa, em média, 90 euros por ano. Com ele, tem acesso a atendimentos particulares pagando um valor máximo que varia entre 15 e 30 euros por consulta. No geral, os serviços de saúde pública em Portugal são bons, o que dispensaria gastar esse dinheiro. Porém, fazer o seguro pode ser mais uma garantia. Em geral, as universidades em Portugal dispõem de parcerias com bancos específicos, incluindo agências em seus campi, o que facilita bastante o processo de ter uma conta.

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Chega de burocracia, quero aproveitar meus dias!

Na verdade, a burocracia nunca acaba em Portugal, e é provável que alguma outra exigência formal surja ao longo dos dias aqui. Porém, considerando que as aqui já apresentadas são as principais, falemos sobre o que importa: a vida cotidiana em Portugal.

Lisboa é uma cidade que mistura a estrutura de um grande centro com um clima de vila do interior. Isso significa que a vida de bairro é uma prática comum (mercadinhos, restaurantes típicos, serviços gerais) e que a estrutura urbana (transporte público, grandes centros comerciais, entretenimento) convivem bem. Mais do que isso, são extremamente convidativas.

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Pegue o bondinho amarelo todos os dias. Foto: Flickr Eliete Oliveira

Na maior parte do tempo, é possível fazer tudo a pé, e muitos estudantes em Lisboa optam por isso. Mal ou bem, é uma forma de economizar dinheiro. No entanto, se a escolha for por usar o sistema de transporte coletivo, pode-se fazer um passe mensal ilimitado para ônibus e metrô por algo em torno de 36 euros. É uma conta, inclusive, que vale a pena ser feita: morar um pouco mais longe da universidade e pagar esse valor costuma compensar mais do que pagar o preço inflacionado das moradias disponíveis próximas aos campi. Por último, se a opção for usar um transporte alternativo como a bicicleta, é bom estar ciente que Lisboa não é bike friendly (tanto em sua geografia, com muitas ladeiras, quanto em suas vias, com pouquíssimas ciclovias ou ciclofaixas), razão pela qual se vê poucas pessoas usando-as para além dos passeios de verão.

Da mesma maneira, é possível comer bem e barato em Lisboa no dia a dia. Quase todos os bairros oferecem opções de menu econômico (entrada + bebida + prato + sobremesa ou café) variando entre 5 e 7,50 euros, mas é bom resistir à tentação e tentar fazer as refeições em casa. Com algo em torno de 50 euros, é possível comprar artigos suficientes para cozinhar por uma semana, incluindo nesse valor o café da manhã (ou pequeno almoço, como chamam os portugueses), o almoço e o jantar. É uma opção que reduz o custo mensal quase pela metade, se comparado com o que se gasta comendo fora, e ainda permite ter um dinheiro extra para o final de semana. Aliás, a palavra de ordem na vida universitária é economizar, mesmo no mestrado ou doutorado, principalmente porque equilibrar as finanças em outra moeda, contando com a variação de câmbio, é sempre um problema.

Mitos e verdades sobre os portugueses (parte 1)

Ok, mas e a vida universitária em Portugal?

Para um brasileiro, a experiência de ter aulas em português europeu pode ser mais complicada do que normalmente se supõe. Apesar da origem comum (e do suposto acordo linguístico costurado entre os países lusófonos), as variações de sotaque das diferentes regiões de Portugal implicam pronúncias difíceis de serem compreendidas em um primeiro momento. Ou seja, no início, as aulas serão um pouco sofridas e exigirão o dobro da atenção regular. Um desconforto inicial que tende a ser quebrado com o passar dos dias.

Em geral, o português brasileiro pode ser utilizado sem problemas, tanto nas exposições orais quanto nos trabalhos escritos. Aliás, é fácil perceber que os portugueses estão mais familiarizados conosco do que o contrário, o que inclui não só uma melhor compreensão do que falamos, como um saber maior da nossa cultura e da nossa história. Definitivamente, somos menos estranhos a eles do que os estudantes que vêm de outras culturas, e costurar boas relações tende a ser tarefa simples. O tal preconceito que muitos temem sofrer não se observa na prática, em especial no espaço acadêmico, lugar consagrado pelas trocas de saberes e de experiências.

Para quem já tem a vivência do ambiente universitário brasileiro, a adaptação – para além da questão linguística – é automática. O modelo de aula é bastante parecido: em média, 3 horas de exposições e discussões por dia, 3 a 4 vezes por semana. As avaliações variam entre provas (testes), apresentações, papers (artigos) e participações em sala. Se for o caso, há um estatuto que permite que estudantes trabalhem durante o curso e possam ausentar-se das aulas regulares, mas não isenta de todas as avaliações – e fazê-las sem base é bastante complicado, na maior parte das vezes. A duração dos cursos em Portugal também é a mesma do Brasil: 2 anos para mestrado, 4 anos para doutorado. Mas é importante lembrar que, para além do tempo gasto com aulas, cursos de pós-graduação exigem do aluno presença em congressos, conferências e afins, além de muito estudo nas horas vagas.

Ao começar a frequentar as aulas, um outro aspecto deve chamar a atenção: o perfil dos alunos de mestrado na Europa mudou bastante por conta da Declaração de Bolonha, em 1999. Com as graduações durando de 1 ano e meio a dois, um público bem mais novo (por volta dos 20 anos) passou a ingressar no mestrado como parte natural da formação acadêmica. Isso não costuma ocorrer no Brasil, onde mestrados e doutorados são procurados, na maior parte das vezes, em um processo posterior de qualificação, com média de idade acima dos 23 anos. Então, é comum que os brasileiros sejam os mais “velhos” da sala, acompanhados apenas por um ou outro europeu de idade próxima. É um fato que pode gerar um pequeno estranhamento de início, mas não é exatamente um problema.

Isso porque não há como negar que o fato de estudar com gente de diferentes partes do mundo é, sem dúvida, um grande atrativo, independente da idade. Infelizmente, o mais comum é que estudantes de mesma nacionalidade formem grupos autossuficientes e dialoguem pouco com os demais. É interessante quebrar esse paradigma. Afinal, para estar apenas com brasileiros, era melhor ter ficado no Brasil, não? Abrir-se para novas experiências, trocas, aprendizados é parte do que a oportunidade de fazer uma formação acadêmica fora oferece de mais interessante. É impressionante o quanto se pode aprender apenas ouvindo o que cada um dos colegas tem a dizer, seja em aula, seja em papos informais.

Mitos e verdades sobre os portugueses (parte 2)

Então vale a pena estudar em Portugal?

Sim, estudar fora pode ser uma experiência muito gratificante. Só é preciso ter o espírito preparado, principalmente quando o que está em jogo é uma formação de 3o ciclo (mestrado ou doutorado). Não costuma ser simples abrir mão de privilégios e confortos conquistados ao longo de uma vida e encarar de novo o ambiente universitário, com aulas, palestras e congressos consumindo boa parte do tempo, além da necessidade de estudo constante nas horas livres. Pensar que sacrifícios são necessários é quase um mantra nessas horas. Mas não há dúvidas de que, com o diploma na mão, a sensação de dever cumprido compensará as privações – e ainda abrirá portas para um futuro melhor, seja no Brasil, seja em qualquer outra parte do mundo.

Ficou empolgado para estudar em Portugal?

Foto de destaque: Flickr Chris Bentley

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