De Paris a Giverny, um passeio pela cidade de Monet

Lago das Ninfeias, em Giverny. Foto: Fernanda Baronne
Lago das Ninfeias, em Giverny. Foto: Fernanda Baronne

Giverny: esse nome vai te soar ao menos familiar. Se você é fã de artes plásticas, certamente conhece a importância desse lugar. Se você for fã de cinema, de repente vai lembrar de lá se eu mencionar a primeira cena de “Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen, quando o protagonista está conversando com sua noiva em uma ponte cercada por um magnífico jardim.

Giverny é a cidade onde se encontra justamente esse jardim, um dos mais famosos da história, o jardim de Claude Monet. Monet é o mais conhecido representante de um movimento chamado impressionismo que não se resumiu às artes plásticas: literatura, teatro, música, várias foram as formas de expressão dos artistas desse movimento francês que revolucionou a face artística do século XIX.

Amélie admira a Ponte Japonesa, em Giverny. Foto: Fernanda Baronne
Amélie admira a Ponte Japonesa, em Giverny. Foto: Fernanda Baronne

Por que ir a Giverny?

Eu posso dar uma série de razões, mas vou começar com a principal: você simplesmente irá visitar  cenários que serviram de modelo a alguns dos mais famosos quadros do mundo. Monet é pop, ponto pacífico. Eu poderia parar por aí, mas existem outras tantas. Ao visitar os jardins, você visita também a casa onde Monet realmente morou (com os cômodos reconstituídos conforme eram utilizados por ele e sua família) – uma verdadeira viagem no tempo.

Giverny não foi apenas a morada de Monet, mas também retiro de outros artistas importantes da época e de um grupo bem peculiar que agitou os anos loucos em Paris na década de 20: os surrealistas. A cidade, embora bem pequena mesmo (não tem farmácia nem caixa eletrônico) é um charme, e você ainda pode aproveitar pra visitar outra cidade fofa que fica bem próxima: Vernon. Colocando Giverny no seu roteiro, você foge um pouco do clássico “bate-e-volta Paris-Monte-Saint-Michel” que é super cansativo (4 horas de viagem de ida e 4 horas e volta.) Giverny fica bem mais próxima de Paris.

AVISO: eu aconselho a visita a Giverny para aqueles que conhecem, ao menos um pouco, e gostam da arte de Monet. Sem um envolvimento prévio, por mais lindo que os jardim sejam, a visita pode parecer sem sentido. Se artes plásticas não é a sua praia, procure outros tipos de bate-e-volta ou concentre-se em Paris.

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Alamedas do jardim. Foto: Fernanda Baronne
Alamedas do jardim. Foto: Fernanda Baronne

Como ir de Paris a Giverny

De Paris, você pode ir de carro, trem ou contratar um tour. Eu não aconselho os tours. Acho impessoais e sempre fica aquele gostinho de que, de uma maneira ou de outra, em algum momento rolou uma “enrolação”. Também não curto andar em “bando”, o que inevitavelmente acontece num tour, mas se por acaso você curtir, ok, seja feliz. A Paris City Vision, uma boa agência, oferece tours saindo de Paris, em português, por 83 euros por pessoa.

Indo de carro, você pode alugar um carro em Paris e percorrer 75km até Giverny. Dá uma média de 1 hora e 30 minutos numa estrada ótima com um pedágio que custa 2,70 euros. A vantagem de ir de carro é que você terá mais mobilidade pra visitar locais próximos, além de não depender dos horários do trem. Tem um estacionamento gratuito praticamente na porta da entrada para os jardins. Só fique atento aos radares na estrada pra não tomar uma multa de bobeira.

Gare Saint-Lazare, de Claude Monet. Foto: Reprodução / Wikimedia
Gare Saint-Lazare, de Claude Monet. Foto: Reprodução / Wikimedia

Os trens para a cidade “grande” mais próxima de Giverny, Vernon, saem da Gare Saint-Lazare (pintada pelo próprio Monet) diariamente pelo menos de duas em duas horas. Há mais trens durante a alta temporada. Para checar os horários em tempo real, basta acessar o site da SNCF e selecionar “timetables & real-time traffic updates”. Você deve procurar o trajeto de Paris a Vernon-Giverny. O primeiro trem sai as 6:11 da manhã. A duração do trajeto varia entre 47 e 53 minutos. Fique atento, pois há alguns trens com correspondência cujo  trajeto pode demorar até 2 horas (um tempo precioso perdido).

Se você comprar seu bilhete na estação, não se esqueça de validá-lo (eles chamam de “composter”) nas maquininhas amarelas que se encontram nas entradas das plataformas. Se houver controle e seu bilhete não estiver validado, você pagará uma multa! Normalmente, não é necessário comprar com antecedência, mas se você preferir, no site da SNCF é possível, você pode imprimir seu e-billet ou apresentá-lo em seu celular e não é necessário validá-lo.

Chegando a Vernon, logo na saída da estação, você vai ver as placas que indicam onde pegar o ônibus (ou navette, como os franceses chamam) que conecta Vernon a Giverny. O bilhete você compra no ônibus, com o motorista, e custa 10 euros ida e volta. A viagem dura em torno de 10 minutos. Você também pode alugar uma bicicleta perto da estação ou até ir a pé se estiver disposto (são mais ou menos 5km de caminhada).

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Jardins de Monet. Foto: Fernanda Baronne
Jardins de Monet. Foto: Fernanda Baronne

Visitando os Jardins de Monet

Se você conseguir programar sua visita com antecedência, compre seu ticket online no site da Fondation Claude Monet. Vai te poupar no mínimo 1 hora e meia de fila na alta temporada (que vai de junho a setembro). E não se iluda achando que se for na baixa temporada vai ser tranquilo.

Os jardins de Monet são a ‘Disney’ dos jardins: estão sempre cheios. Aí você vai me dizer: “Ah, mas eu não quero visitar um lugar lotado, cheio de turistas…” Tá, eu entendo sua angústia, mas ainda que sempre cheios, os jardins de Monet são únicos, mágicos, e você sempre consegue encontrar um cantinho solitário que seja pra sentar um pouco, admirar as flores e plantas, ler, escrever em seu diário, meditar, ou simplesmente não pensar em nada

Jardim e casa de Claude Monet ao fundo. Foto: Fernanda Baronne
Jardim e casa de Claude Monet ao fundo. Foto: Fernanda Baronne

Quando ir a Giverny

Se você puder ir na primavera estará no paraíso. Eu já fui nessa época (final de maio) e uma vez no alto verão (em agosto). Você não vai ver tanta diferença em relação às flores, mas vai sentir uma diferença enorme em relação ao calor! A França, no alto verão, é bem quente e o passeio pode não ser tão incrível porque você vai querer que termine logo pra achar uma sombra ou um restaurante que tenha ar-condicionado.

Abril e setembro também são bons meses; as temperaturas são mais amenas (talvez um pouco frio ainda no caso de abril), mas com certeza o ambiente mais ‘fresco’ vai dar até um certo charme ao passeio. Com relação ao horário, eu aconselho ir pela manhã. Eu acabei chegando em Giverny no final da tarde e resolvi entrar na fila pra comprar o ingresso e voltar cedo na manhã seguinte.

Giverny ao “clair de lune”. Foto: Fernanda Baronne
Giverny ao “clair de lune”. Foto: Fernanda Baronne

Dormir em Giverny? Não é necessário

Você pode sair de manhã de Paris e estar de volta no meio da tarde, sem o menor problema.  Mas para viver uma experiência diferente, programe-se para ficar uma noite. Assim como todas as outras destinações turísticas lotadas, após um certo horário, Giverny fica completamente vazia e você encontra, enfim, aquela atmosfera que tanto encantava os artistas que moravam ou passavam temporadas lá.

Eu adoro andar por lugares assim quando já não tem ninguém e ouvir o barulho dos meus sapatos nos paralelepípedos enquanto escuto um ou outro ruído da pouca vida que restou. O barulho de uma mesa sendo posta, das águas de um rio que eu não havia percebido, das rodas de uma bicicleta que passa enquanto eu admiro o céu estrelado, ou do tamborilar da chuva nos telhados.

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Le Moulin des Chennevières. Foto: Fernanda Baronne
Le Moulin des Chennevières. Foto: Fernanda Baronne

Onde ficar em Giverny

Existem alguns hotéis, desde bem simples até um 5 estrelas, e bed & breakfast’s. Assim como tours, eu não curto muito hotéis. Prefiro alugar um apê no Airbnb ou um quarto num bed & breakfast para viver uma experiência com moradores locais. Como decidi de ultima hora ir pra Giverny, deixei pra achar um lugar quando já estava lá (o que não é aconselhável, afinal as opções ficam bem mais restritas e você pode cair numa roubada).

Dei muita sorte e ainda tinha um quarto vago num B&B chamado Le Moulin des Chennevières que fica bem perto da entrada da cidade e, embora seja na beira da estrada, é um oásis de paz e tranquilidade: uma linda casa num moinho que há 20 anos foi transformada em hospedaria por um casal de locais. A casa é muito bem conservada, linda! O moinho funciona (e eu amo o barulhinho das pás na água). O jardim é extremamente bem cuidado com lugar pra sentar pra comer à sombra das árvores, espreguiçadeiras pra esquecer um pouco da vida, e uma parte dedicada à criação de vários animais como avestruzes, porquinhos-da índia e cangurus! (Os proprietários são apaixonados pela Austrália).

Porquinhos-da-índia no jardim do B&B. Foto: Fernanda Baronne
Porquinhos-da-índia no jardim do B&B. Foto: Fernanda Baronne

A proprietária, Stephanie, é muito simpática e autêntica. Aliás, ela e o marido são tão autênticos que na descrição da propriedade no Airbnb, eles dizem que não aceitam crianças de menos de 12 anos (fazem muita bagunça e incomodam os hóspedes) e pessoas que estejam vindo de uma festa de casamento (fazem muita bagunça e incomodam idem).

Como cheguei de última hora, o quarto que havia sobrado era o Pivoine (99 euros/diária). Ele é pequeno, mas o problema não é o tamanho. Por ser uma espécie de sótão, você tem que se abaixar, por exemplo, pra ir ao banheiro (por conta de uma coluna que estrutura a casa), e tem que tomar banho meio agachado, o que não é nem um pouco confortável se você pretende passar mais de um dia lá. Acabei vendo um dos outros quartos (Chambre Tournesol) na manhã seguinte e achei bem mais confortável. O preço dos quartos não é barato. Varia de 99 a 145 euros com café da manhã. Mas eu achei que a experiência valeu a pena.

Café da manhã do Le Moulin des Chennevières. Foto: Fernanda Baronne
Café da manhã do Le Moulin des Chennevières. Foto: Fernanda Baronne

Como um bom B&B, eles servem café da manhã. Tomei o meu num cantinho delicioso do jardim ouvindo o barulho do rio que corre logo atrás da casa. Eles servem variados tipos de pão que você pode comer com manteiga ou geleia (feita em casa), croissant ou pain au chocolat, muffins, bolos, queijos, frios, iogurte, cereais, sucos naturais, café, leite, chá, frutas. Um café da manhã simples, se comparado ao de um hotel, mas bem saboroso.

Vinho rosé no Ancien Hôtel Baudy. Foto: Fernanda Baronne
Vinho rosé no Ancien Hôtel Baudy. Foto: Fernanda Baronne

Onde comer em Giverny

Depois de me dar um mapa da cidade, Stephanie me aconselhou a comer no único restaurante que, na opinião dela, não é um “pega-turista”: L’Ancien Hotel Baudy. Conselho: reserve. Passamos por volta das 18h pra conhecer e decidir se queríamos mesmo comer lá e quando tentei reservar já não tinha mais horário livre. Você pode pedir pra ligar da recepção de onde você estiver hospedado, já que eles não tem serviço de reservas online. O restaurante fica no final da rua onde está a fundação Claude Monet, bem perto de igreja de Sainte-Radegonde (século XI) onde o pintor e seus familiares estão sepultados.

Terraço do restaurante Ancien Hôtel Baudy. Foto: Fernanda Baronne
Terraço do restaurante Ancien Hôtel Baudy. Foto: Fernanda Baronne

O restaurante tem algumas salas e um delicioso terraço num jardim – onde eu aconselho ficar. A comida não é cara pro padrão da França e é bem gostosa. Você vai comer com outros turistas hospedados na cidade, claro, mas também terá locais por perto. (Aliás, o que aconteceu foi que ao contar pra Stephanie que o restaurante estava lotado, ela ligou pra lá e pediu pra colocar dois lugares a mais na mesa deles. ☺) Se possível, passe nesse restaurante enquanto ainda está claro pois eles têm um lindíssimo (e vazio) jardim que pode ser visitado pelos hóspedes na parte de trás. Imperdível!

O Velho Moinho, em Vernon. Foto: Spedona / Wikimedia CC BY-SA 3.0
O Velho Moinho, em Vernon. Foto: Spedona / Wikimedia CC BY-SA 3.0

O que visitar além dos jardins de Monet

Se você se organizar e chegar em Giverny relativamente cedo, pode aproveitar para visitar Vernon antes de pegar o trem ou o carro de volta pra Paris. Vernon tem um centro  histórico fofinho e um pitoresco velho moinho que se tornou cartão postal da cidade. Há também algumas atrações próximas como o Castelo de Bizy e uma locomotiva turística na cidade de Pacy-sur-Eure, a 13 quilômetros de Vernon. Você pode obter maiores informações no site do bureau de turismo ou no próprio Office de Tourisme quando chegar a Vernon (36 rue Carnot).

Uma última coisa: se puder, transforme sua visita em uma experiência sensorial. Como? Com música! Escolha músicas que você ame ouvir e solte a playlist enquanto passeia pelas alamedas floridas ou admira a ponte japonesa. Essa também é uma maneira de se desligar um pouco dos outros vários turistas que estarão lá ao mesmo tempo que você. Um dos meus compositores clássicos favoritos é justamente um impressionista, outro Claude, o Debussy. Eu aconselho então a clássica “Clair de Lune” e a menos batida “Prélude à l’après-midi d’un faune” como trilha sonora.

Amélie, contemplativa, achou um canto pra ficar sozinha e admirar o jardim.
Amélie, contemplativa, achou um canto pra ficar sozinha e admirar o jardim. Foto: Fernanda Baronne

Fernanda Baronne é carioca, atriz e dubladora. Em 2014 decidiu deixar a Cidade Maravilhosa para realizar o sonho de morar na Cidade-Luz. Estuda literatura francesa na Sorbonne e seus esportes preferidos são fazer piquenique à beira do Sena e flanar sem rumo pra descobrir as pepitas escondidas da capital. Seu bairro de coração é Montmartre e prefere mil vezes bicicleta ao metrô. Quando não está em Paris, pode encontrá-la viajando por aí e caçando o por-do-sol com sua companheira inseparável, a playmobil Amélie.

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