Comida brasileira em Lisboa? A chef Juliana Magalhães faz, com sabores portugueses

Sobremesa de tapioca do Aromas e Temperos. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Sobremesa de tapioca do Aromas e Temperos. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Chef à frente de um restaurante de fusão de comida brasileira e portuguesa em Lisboa, o Aromas e Temperos, Juliana Magalhães – ao contrário de muitos de seus pares na profissão – cresceu longe das panelas. Na sua família, cozinha não era lugar de criança e foi só depois de adulta e trabalhando na área de administração que, por puro acaso, sua vida começou a seguir o caminho que a trouxe a Lisboa.

Juliana estava de molho em casa por causa de uma cirurgia quando viu na televisão o anúncio de um concurso de receitas da Ana Maria Braga. Resolveu participar da brincadeira, inscrevendo uma sobremesa que havia feito muito sucesso num almoço de família recente. Para sua surpresa, ganhou, e então resolveu se dedicar ao seu recém-descoberto talento.

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A chef Juliana Magalhães. Foto: Divulgação
A chef Juliana Magalhães. Foto: Divulgação

Receitas brasileiras com ingredientes portugueses

Foi uma temporada intensa no Senac de Campos de Jordão – que resultou numa passagem  por uma escola de cozinha em Paris – que Juliana trocou a administração pelas panelas e acabou se tornando consultora e professora de gastronomia em Fortaleza, no Ceará, sua cidade natal. Era o ano de 2013 quando ela resolveu fazer um mestrado em Ciências Gastronômicas em Lisboa e bastaram alguns meses na cidade para ela ligar para a mãe e avisar que não pretendia voltar para o Brasil.

Pouco tempo mais tarde, o português Nuno entra nessa história. Ele tinha disponível um espaço em Arroios que já tinha funcionado como uma tasca e ofereceu para Juliana, que hoje é sua namorada. “Então eu aceitei o desafio de fazer o que sei: comida brasileira”, conta ela que, diante da falta de vários ingredientes tradicionais para suas receitas, decidiu apostar na substituição de itens brasileiros por portugueses, criando novos sabores.

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Escondidinho de carne seca com batata doce, do Aromas e Temperos. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Escondidinho de carne seca com batata doce, do Aromas e Temperos. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

Tapioca, bobó de camarão e linguiça na cachaça

Assim surgiram, por exemplo, o escondidinho de carne seca (que ela mesma faz) com purê de batata doce, em vez de aipim, e o Crocante da Ilha, porção de dadinhos de tapioca em que o Queijo da Ilha substitui lindamente o queijo coalho. Juliana contou com o apoio da sua orientadora da tese de mestrado para seu negócio: “Ela gostou tanto da proposta que sugeriu que a tese fosse o restaurante”.

Na sua cozinha brasileira com sotaque português, Juliana diz que as referências mais fortes são do Nordeste do Brasil. Uma rápida passada de olhos pelo cardápio deixa isso bem evidente: há bobó de camarão, mas com farofa de broa de milho em vez de dendê; chouriço flambado na cachaça com caramelo de cachaça; bolinho de estudante com doce de leite em flor de sal e brigadeiro de cachaça. A chef conta que gostaria de explorar sabores da região Norte, que ela considera a cozinha verdadeiramente brasileira, mas a dificuldade de acesso aos ingredientes é um forte empecilho.

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Crocante da ilha: os dadinhos de tapioca de Juliana. Foto: Flávia Motta / Almost Locals
Crocante da ilha: os dadinhos de tapioca de Juliana. Foto: Flávia Motta / Almost Locals

A sinceridade portuguesa

No Aromas & Temperos a proposta é a partilha, um conceito que não era tão comum em Lisboa quando Juliana abriu o espaço. “Foi uma ideia minha, porque gosto de ir a um restaurante e provar vários pratos. Mas se o cliente não quiser dividir, a gente faz um prato só para ele”, conta Juliana antes de dizer que frequentemente os franceses, suíços e alemães que vão ao seu restaurante preferem não dividir os pratos.

Para testar seus pratos antes de abrir as portas do restaurante, Juliana contou com a sinceridade de amigos portugueses. Sinceridade, aliás, que faz parte da sua rotina até hoje. “Os amigos foram bem críticos e eu ajustei várias coisas nas receitas, mas já aconteceu de eu ter uma família portuguesa no restaurante que não gostou de nada que comeu”, recorda ela, com ar divertido e a naturalidade de quem sabe que críticas são bem-vindas – e que a tal família está longe de representar a resposta padrão da sua clientela.

Com um salão de apenas 16 lugares, numa rua discreta entre Arroios e Estefânia, o Aromas & Temperos vai passar por uma expansão, ocupando o espaço ao lado e ampliando a sala para 40 lugares. Além disso, Juliana se prepara para a abertura ainda em 2017 de um restaurante na Ilha de Malta, mas dessa vez com uma cozinha mais internacional: um outro desafio para a chef.

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