Três blogueiras de turismo contam como é ser uma mulher viajante – e o que ainda precisamos enfrentar mundo afora

Mari Campos (esq.), Mariana Amaral (centro) e Natalie Soares (dir.): blogueiras especializadas em turismo contam os desafios de ser uma mulher viajante. Foto: Divulgação
Mari Campos (esq.), Mariana Amaral (centro) e Natalie Soares (dir.): blogueiras especializadas em turismo contam os desafios de ser uma mulher viajante. Foto: Divulgação

Ser mulher e viajar. Ser mulher e viajar sozinha. Ser mulher, viajar sozinha e fazer disso a sua profissão. Para fechar o mês de março, em que celebramos o Dia Internacional da Mulher com uma série de posts especiais, nada mais adequado do que dar voz a três das principais jornalistas e blogueiras do país para falar sobre os desafios que uma mulher viajante ainda encontra ao cair na estrada.

Desde 2007 a jornalista Mari Campos conta suas andanças no site que leva seu nome – um de seus livros publicados é Sozinha Mundo Afora (editora Verus/Record, R$ 19,90). Já a carioca Mariana Amaral faz parte da equipe do renomado Viaje na Viagem, comandado por Ricardo Freire: ela é editora de conteúdo do site desde 2012. A publicitária Natalie Soares também integra o time do VnV como editora de conteúdo online e toca seu próprio site de viagens, o Sundaycooks, ao lado do marido Fred Marvila. O que elas têm em comum? São mulheres que fizeram do lazer uma profissão e, a cada escala, conexão ou destino desbravam caminhos para que outras mulheres também possam se aventurar. Entre outros assuntos, as três contam como uma mulher viajante é recebida em diferentes países e, ainda, dão dicas para quem quer explorar o mundo.

Mari Campos (esq.), Mariana Amaral (centro) e Natalie Soares (dir.): blogueiras especializadas em turismo contam os desafios de ser uma mulher viajante. Foto: Divulgação
Mari Campos (esq.), Mariana Amaral (centro) e Natalie Soares (dir.): blogueiras especializadas em turismo contam os desafios de ser uma mulher viajante. Foto: Divulgação

Almost Locals: Como é a recepção a uma mulher viajante nos diferentes países em que você esteve? 

Mariana Amaral – Eu não me arrisco a comentar sobre a recepção específica em cada país, porque nas viagens a gente acaba tendo só um recorte bem pequeno das coisas. Mas mulheres passam por perrengues por serem mulheres em qualquer lugar. É comum que um casal de mulheres ainda tenha que explicar no balcão do check-in do hotel que querem realmente uma cama de casal no quarto, conforme consta na reserva, e não duas camas de solteiro. E também não é raro que mulheres já de seus 30 ou 40 anos sejam tratadas de uma forma super paternalista quando estão viajando sozinhas, como se não fossem capazes de se virar por aí sem ajuda (de um homem, mais precisamente). Fora o assédio disfarçado de cavalheirismo. Ou nem disfarçado, às vezes.

Mari Campos –  Depende muito do país. Já estive em diversos países em todos os continentes do planeta e a recepção a mulheres viajantes muda muito até entre países vizinhos, dependendo de aspectos sociais, culturais e religiosos. Mas eu acho que a recepção também depende muito de como nós chegamos aos lugares e do quanto nós nos irritamos com os outros. E depende muito mais dos indivíduos em si que do coletivo nacional. O Sudeste asiático, por exemplo, costuma ser ultra receptivo com o público feminino; Bali é lotada de mulheres viajando sozinhas! Mas tem gente de cabeça fechada e pequena até lá – a gente tem que estar sempre preparada para destruir esses pseudo-argumentos e seguir em frente. Eu leio e pesquiso muito sobre cada local que visito pela primeira vez antes de viajar – costumes, tradições, experiências de outras mulheres que foram sozinhas, e acho que isso ajuda sobremaneira (brinco que estou sempre trabalhando com gerência de risco e calculo tudo o que pode dar errado antes de embarcar). Pessoalmente, não posso reclamar especificamente de nenhum destino; há lugares que tradicionalmente nos exigem mais “traquejo” para lidar no dia a dia com preconceitos e assédios, mas fiz bons amigos viajando sozinha até em países tradicionalmente machistas e/ou avessos a mulheres independentes e carregados de assédio, como Marrocos, Egito e Índia. Hoje em dia, ando numa fase de me incomodar mais no Brasil e nos EUA com os olhares de pena e desaprovação quando janto sozinha do que com os marroquinos que ficam assobiando e “secando” cada mulher ocidental que passa, sabe? Nos preconceitos viajantes, a hipocrisia me incomoda mais do que o que é escancarado. 

Natalie Soares –   No geral, o saldo é sempre positivo. Já fui “adotada” por outras viajantes ao descobrirem que eu estava sozinha, já fui na festa do bairro do pessoal da agência de viagem que me levou para um passeio… As pessoas gostam de conviver com quem as visita e sempre acham muito curioso quando descobrem a história do Sundaycooks, o meu site.

Almost Locals: Muitas mulheres ainda têm medo de viajarem sozinhas. O que você diria para encorajá-las? 

Mariana Amaral –  Nunca deixe de fazer uma viagem por falta de companhia. Viajar sozinha é um exercício de independência fabuloso. Ninguém controla o seu dinheiro, ninguém repara no que você come no almoço, ninguém apressa aquele passeio que só você gostaria de fazer. Tanto faz se você acorda às 7 da manhã ou ao meio-dia. A viagem é só sua. Claro que às vezes faz falta ter alguém do lado para falar uma bobagem, comentar uma exposição, dividir uma panela de moqueca. Mas daí você compartilha uma foto no Instagram, manda um “Lembrei de você” por WhatsApp, e tá tudo certo. Viajar sozinha é descobrir que nossa própria companhia é também muito prazerosa. No segundo dia você já fica mais à vontade para passear sozinha do que no primeiro, e, no terceiro, a cidade já é sua.

Mari Campos – Eu digo sempre: vá!  Os medos, receios e preconceitos são sempre muito maiores nas nossas cabeças que em qualquer outro lugar. Viajar sozinho, para o homem ou para a mulher, é uma experiência absolutamente gratificante e engrandecedora – nos abrimos mais para os outros, para o inusitado, para o surpreendente, para nós mesmos. Tanto que você pode notar que é raríssimo alguém fazer uma única viagem solo e depois nunca mais; normalmente, quem viaja sozinho uma vez acaba se descobrindo tão bem com a experiência que repete depois. Quando viajamos sozinhas, a única diferença é que não temos com quem dividir os cuidados de segurança – a gente tem que prestar atenção o tempo todo por onde anda, onde estão nossos pertences, o que acontece a nosso redor. Pode parecer assustador num primeiro momento, mas nunca vi isso como negativo, pelo contrário; acho um ótimo exercicio – sem contar que, como brasileiras, já estamos praticamente pós-graduadas no quesito “zelar pela nossa segurança o tempo todo”, né? E pra quem tem medo da solidão, eu sempre digo: viajar sozinho é MUITO diferente de viajar solitário. Uma pessoa pode se sentir solitária até viajando acompanhada, se a companhia não for boa. Viajando sozinho a gente só fica realmente sozinho quando e como quer; do contrário, o mundo está sempre cheio de outros viajantes, solo ou não, e moradores locais abertos para um bom papo, seja na fila do museu, no aeroporto, no cafezinho da esquina do hotel, no parque… Digo com a boca cheia que não houve uma única viagem solo que fiz da qual não tenha voltado com pelo menos um bom novo amigo.

Natalie Soares – Eu diria que uma das melhores formas de se conectar consigo mesma é viajando sozinha. E não quero dizer isso num sentido de auto-ajuda vazia. Provavelmente uma hora vai bater uma sensação de insegurança, em outro momento você pode até se perguntar “o que eu que estou fazendo aqui? ”. No final as coisas se acertam e viram boas histórias pra contar.

Almost Locals: Como o machismo atrapalha a vida de uma mulher viajante que quer explorar o mundo e como podemos lutar contra isso?

Mariana Amaral –  O machismo vence quando consegue convencer de que mulheres devem ficar em casa, que os seus desejos de viagem são caprichos bobos, que gastar com isso é besteira. É paralisante. As excursões de senhorinhas de terceira idade são cheias de mulheres que só depois de viúvas começaram a visitar os lugares com que sempre sonharam. Nossa liberdade incomoda. Para lutar contra, o primeiro passo é assistir ao filme “Moana”. O segundo é começar a pensar em respostas bem boas para “Nossa, o seu marido deixa você viajar sozinha?”. O terceiro é buscar apoio e trocar idéias com mulheres que viajam, buscar inspiração em blogs, em grupos no Facebook. E viajar. E ganhar o mundo.

Mari Campos – A principal forma com o que o machismo desde sempre atrapalha a vida de mulheres que querem ganhar o mundo é com o preconceito que está na cabeça de tanta gente – inclusive na cabeça de tantas mulheres que vivem desencorajando ou olhando torto para mulheres que viajam sozinhas por aí. A maioria dos preconceitos machistas que enfrentei nas minhas viagens solo ou em papos sobre isso vieram, acredite, da boca de mulheres. “Mas você não tem medo do que vão pensar por você estar sozinha em tal lugar?”, é algo que ouço frequentemente. Uma coisa que me tira do sério é gente que tece preconceitos sobre o que uma mulher “está procurando” quando senta sozinha no balcão de um bar ou na mesa de um restaurante. A passeio ou a trabalho, eu frequentemente vou a bares e restaurantes sozinha quando viajo – e não estou procurando absolutamente nada além de um bom drink e um belo jantar, oras! E, aliás, se eu “estivesse procurando algo” também seria problema unicamente meu e de mais ninguém. A melhor forma de lutarmos contra isso é que a gente siga viajando para onde bem entendermos, do jeito que quisermos e que a gente faça sempre nossa parte em tentar mostrar para qualquer um que vier com comportamento machista que uma mulher viajando o mundo sozinha é algo tão incrível e natural como um homem viajando sozinho, ou um grupo de amigos viajando juntos ou uma família inteirinha em férias coletivas. É preciso responder, rebater, ensinar quem ainda não consegue entender. E é preciso também, como mulheres, que paremos urgentemente de nos boicotar, de tecer comentários maldosos ou – o horror, horror! – olhar com pena para mulheres que estão sozinhas no aeroporto, no lobby do hotel, no balcão do bar ou na mesa do restaurante.

Natalie Soares – O assédio e o medo de andar sozinha por certos lugares ou de pegar o transporte público tarde da noite muitas vezes são grandes empecilhos e incomodam bastante. Por exemplo: em alguns destinos aqui da América Latina, eu me sentia muito mal e até mesmo constrangida apenas por tentar sair do hotel usando um short curto, desde os olhares até os comentários eram por demais invasivos. A maior arma para a mudança acredito que seja a informação. Não podemos abrir mão de ocupar espaços que são nossos por direito. Conversar com outras mulheres viajantes e pedir alguma dica especial sobre determinado lugar/país é uma maneira simples de começar a se planejar e a prevenir ser pega de surpresa por qualquer tipo de situação indesejável.

Almost Locals: Mariana, o Viaje na Viagem é um site renomado e bastante conhecido dos leitores brasileiros. Como é fazer parte desse time? Como a sua vivência como mulher agrega ao conteúdo do site?

Fazer parte do Viaje na Viagem é lindo. Tenho dois chefes que são absoluta inspiração pra mim – o Ricardo Freire e a Elisa Araujo. E, ainda por cima, nossa equipe é formada só por mulheres fabulosas. Não sei dizer no que a minha vivência como mulher agrega ao conteúdo do site (vou até refletir sobre isso…), mas fico feliz que o meu trabalho seja ajudar pessoas a viajar. Vai que tem alguma mulher sozinha agora, em algum lugar do mundo, lendo as nossas dicas, e se sentindo mais segura? Pensar nisso me deixa muito feliz.

Almost Locals: Mari, muita gente acha que viver viajando é puro glamour. no seu site você conta que passa 75% do ano na estrada. como é a rotina de quem viaja o tempo todo? 

Hahahaha, não tem mesmo nada do glamour que as pessoas criam. Viajar a trabalho é MUITO diferente de viajar a passeio. Passeio é lazer, a gente faz o que quer, acorda a hora que quer, pode mudar de ideia no meio programa. Pode passar o dia inteiro de bobeira na praia, se quiser. Trabalho é sempre trabalho, é obrigação, é agenda. Nao dá para eu passar o dia na praia no Caribe para escrever uma matéria – matérias envolvem apuração profunda e exaustiva. O leitor quer aproveitar a praia, mas ele também quer saber exatamente quais as maneiras de chegar lá e seus prós e contras, onde ele pode almoçar, se dá pra fazer um outro passeio no mesmo dia, qual lugar tem a melhor cotação de câmbio, que agências e receptivos locais são confiáveis, que passeios são mico. Muitas vezes temos a chance de nos hospedarmos em hotéis incríveis e não conseguimos aproveitar deles nada além da cama e do chuveiro. A gente dorme pouco, porque depois que volta pro hotel ainda tem que escrever – eu acabo indo pra cama lá pelas duas da manhã e muitas vezes tem compromisso 7:30 no dia seguinte. Não dá pra fingir que está de férias e não ir entrevistar aquela pessoa – é trabalho, existe uma agenda a ser cumprida. Ou visitamos um destino de praia e não temos um segundo de folga para ir dar um mergulho no mar. É só pensar num executivo viajando a trabalho – a vida do jornalista  de viagem é bastante semelhante. A gente viaja focado em visitar lugares, anotar preços e horários, investigar pegadinhas, ir atrás de descobrir dicas e coisas novas, testar isso, testar aquilo… é ultra puxado. Isso sem contar as infinitas horas em aeroportos, aviões, transfers e afins. Eu, como freelancer para diferentes revistas e jornais de diferentes países, geralmente estou num destino mas escrevendo matérias sobre outros destinos porque a gente vive uma sequência de deadlines; então posso estar em Paris e passar o dia toda imersa no francês e nas explorações parisienses, mas ao voltar pro hotel à noite ter que me focar em escrever em inglês uma matéria sobre a Grande Barreira de Corais Australiana. Eu não reclamo porque escolhi fazer jornalismo e, tendo viajado muito desde sempre, escolhi anos depois me especializar neste segmento. É prazeroso, é claro, trabalhar com o que mais amo na minha vida (escrever) em um universo igualmente apaixonante (viagem), mas é trabalho e tem sempre seus percalços.

Almost Locals: Natalie, o Sundaycooks une sua paixão por viagens a tecnologia. como esses dois temas caminham juntos hoje em dia e como a tecnologia pode ajudar a vida de uma mulher viajante?

A tecnologia abre portas e facilita encontrarmos novos caminhos. Viajar com o auxílio de novas ferramentas e recursos é imprescindível. O smartphone é o melhor amigo da mulher viajante. Um celular equipado de um chip com internet e aplicativos / sites bem informados são uma mão na roda e podem nos salvar de várias roubadas. Só não vale esquecer uma bateria extra, porque ela não costuma durar o dia todo de andanças 😉 Hoje conseguimos tanto planejar nossa viagem com antecedência quanto encontrar não apenas bons valores, mas também experiências e relatos de pessoas do mundo todo que viajaram para os mesmos destinos. Acho isso mágico! Também é sensacional a possibilidade de poder compartilhar esses bons momentos com quem está a 12 horas de fuso, sejam eles amigos, parentes ou crushs.

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1 Comment

  • Gente! Que coisa mais linda <3

    Tati, super obrigada pelo convite. Fiquei feliz demais de dividir esse espaço com duas mulheres e profissionais que eu gosto tanto.

    Bjs
    Natalie

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