Afrikaburn: a minha primeira vez no Burning Man africano

“Como é que vou explicar isso aqui para os outros quando eu voltar pra casa?”

Essa foi a pergunta que martelou minha cabeça durante os sete dias que passei imersa no Afrikaburn, o evento regional do Burning Man no deserto de Tankwa, na África do Sul. A explicação ainda está longe de uma definição certeira e ganha novos contornos a cada dia que passa. Foi lindo, duro, arrebatador e engrandecedor. Uma ideia pouco pensada que se transformou em um capítulo especial da minha vida.

A ideia de ir ao festival veio em tom de brincadeira em uma manhã de ressaca com a Lalai e o Ola, do Chicken or Pasta, em outubro do ano passado. Seis meses depois, eu estava subindo no avião para uma série de “primeiras vezes” que deixaria a Amanda de 20 e poucos anos toda arrepiada: minha primeira viagem ao continente africano, minha primeira vez acampando em condições extremas, meu primeiro aniversário longe de todos e sem nenhum canal de contato com o mundo externo.

Parte da gang brasileira no Afrikaburn. Crédito: Renato Salles

Ouvindo os relatos de amigos que já estiveram por lá, eu oscilava entre empolgação e medo. “Você torra durante o dia e congela durante a noite”. “Prepare-se para tomar, no máximo, 2 banhos na semana inteira”. “Os banheiros estão virados para o deserto e não têm porta”. “Arranje um sleeping bag para temperaturas entre 0 e 5 graus”.

Eu, taurina filha do conforto e afilhada da modernidade, pensei em arregar. A pressão amiga e carinhosa do grupo de 15 brasileiros que estavam no mesmo barco que eu não me deixou dar para trás.

Já nas cinco horas de estrada que separam a Cidade do Cabo de Tankwa, eu percebi que tudo que havia pensado até o momento ia ser rasgado e jogado pela janela. O calor era muito pior, o pó entrava em lugares muito mais escondidos e o sol queimava a alma.

Deserto é lindo mas pode ser cruel com quem não se cuida. Crédito: Juliana Matos / http://dejumatos.com

Meu primeiro encontro com o deserto foi como qualquer primeiro encontro. Eu demorei para me sentir confortável e começar a ser eu. Depois de um primeiro dia de estranheza inicial e de reconhecimento de área, eu entendi: minha experiência no Afrikaburn ia ser inventada, decidida e vivida por mim e só por mim. Eu seria minha guia, meu anjo e meu demônio durante esses dias. E essa é toda a graça do jogo: descobrir alguns pedaços de você que nunca tiveram coragem de sair para brincar na luz fria do mundo real.

A partir daí, eu pulei de cabeça na experiência transformadora de uma sociedade alternativa onde os valores urbanóides são quase inexistentes. No Afrikaburn, a base de tudo é o “gifting” (NADA é vendido por lá além de gelo), o consentimento e o não julgamento. Você pode ser tudo o quiser, sem restrições, mas sempre com uma mão estendida caso alguém precise segurar. Pode soar new age, e talvez até seja. Mas ali, entre esculturas de madeira, perrengues, música e amigos, um sorriso qualquer de um estranho ou um gole de água gelada inesperado ganham contornos quase mágicos. E que incrível poder reconhecer – e ser grata – pelos encantos das coisas simples.

O Afrikaburn é para todos: crianças, adultos e famílias. Crédito: www.thetrufflejournal.com

Mas o que rola lá?

Rola tudo o que você quiser que role: música de todos os gêneros, arte, carros mutantes, sexo, drogas, calor, novas amizades, pegação, yoga pelado, palmadas na bunda, cinema de noite, concertos de piano, lava rápido de gente, biblioteca. Um minimundo onde o livre arbítrio é o seu guia. Pode ser tudo, fazer tudo, sentir tudo. Escolha seu alvo, mire e mande bala. Se cansar, dê meia volta e faça aquela outra coisa que você achou que nunca faria. Não há regras, nem acerto, nem erro. Não à toa, o tema da edição deste ano era “Play”.

Meus dias por lá se dividiam entre manhãs calorentas visitando as incríveis instalações de arte que se espalhavam pela imensa área do festival, tardes servindo chá no camp ou fugindo do sol matador em algum lugar coberto e noites de jogação comedida. O deserto é cruel e a conta chega rapidinho para quem não se cuida. O cidadão que se joga como se não houvesse amanhã cai na primeira curva e perde o bonde passando mal de insolação, desidratação, piriri ou todas as alternativas anteriores.

Palquinho fervido com o pôr do sol mais lindo como cenário. Crédito: www.thetrufflejournal.com

No deserto, com todos devidamente montados, um céu de cinema e sol a pino, tudo ganha ares de miragem: a escultura gigantesca em forma de concha colorida, o disco voador estacionado ao lado do seu camp, a espreguiçadeira/divã com vista para o pôr do sol mais bonito que já vi, o set inesperado de dois moleques de Berlim que transformaram a minha noite na balada mais legal que peguei nos últimos tempos. A ausência de um plano abre espaço para que coisas incríveis aconteçam a todo minuto. A cabeça explode a cada curva e você se pergunta porque é que nunca tinha feito isso antes.

Quando o sol vai embora, o Afrikaburn sofre outra metamorfose. Além das luzes das instalações e dos camps, não há iluminação. Para ver e ser visto, todos se transformam em seres de luz e o deserto vira uma Las Vegas louca de ácido: um fluxo constante de luzes indo e vindo sem parar até o sol raiar. Mais uma vez, como é que vou explicar isso para os outros?

Veículos mutantes: festas itinerárias 24/7. Crédito: www.thetrufflejournal.com

Leave no trace

Outra parte importante para se entender o espírito do Afrikaburn é o “leave no trace”, o compromisso (seríssimo) de não deixar nenhum pedacinho de papel rolando pelo deserto depois que o festival acabar. Quem cuida disso? Todo mundo. Por lá, não existe o ser mítico que resolve problemas e limpa tudo enquanto você se diverte. Você é responsável pelo lixo que produzir durante suas andanças e pelo lixo do seu camp quando chegar a hora de ir embora. Bituca de cigarro, palito de sorvete, papel de bala, embalagens e latas devem voltar com você para o seu camp (não existem lixeiras em nenhum lugar além dos banheiros).

“Ah, mas ninguém vai saber se eu jogar um papelzinho de bala no chão”.

Amigo, volte para o começo do post e leia tudo outra vez porque você não entendeu nada sobre o rolê. Fato verídico: passei um bom tempo do meu último dia caçando paetês, bolinhas de isopor e outros microlixos no chão (areia do deserto) do nosso camp.

O Spirit Train rodava o festival fazendo som e foi uma das nossas pistas favoritas. Crédito: http://dejumatos.com

Os Burns

Nos dois últimos dias de festival acontecem os burns, as famosas queimas das instalações de arte. Elas acontecem durante todo o dia e são classificadas de acordo com o tamanho. As maiores acontecem já de noite e reúnem grande parte do público e dos carros mutantes. Como fui embora no domingo pela manhã, perdi o burn do Clan, que é o símbolo do festival, mas pude ver o “silence burn” do templo, uma instalação imensa que levava consigo recados e desejos rabiscados, e que queimou imponente cercada por um silêncio absoluto.

Pausa para todos os arrepios que cabem em uma frase.

Presenciar a queima dos lugares que durante uma semana fizeram parte do seu dia a dia é muito simbólico. O lugar onde ontem você estava curtindo a melhor balada do festival virou cinza. O ponto de referência que você usava para achar o seu camp também. Impermanência e desapego ardendo em chamas em um espetáculo difícil de esquecer.

O silent burn do Templo. Arrepio nível avançado. Crédito: Jo Machado

Balanço final

Houve dias em que eu disse que o Burn não era para mim. Em outros, jurei que queria passar o resto da minha vida vestindo um tutu no deserto. Em nenhum momento duvidei de todas as peças que esse festival iria mover na minha cabeça. Um amigo me disse que só me perguntaria se eu faria tudo de novo depois que a gente voltasse para a casa. Quase uma semana depois, já posso dizer: bateu saudade e os perrengues ficaram pequeninos perto de tudo o que vivi por lá. Não sei se volto, mas o Afrikaburn não vai sair de mim tão cedo.

 

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